Brasil-Brasília
 
A forma de Brasília
Cheguei em Brasília avistando-a do alto. Buscava a visão da planta baixa da cidade em forma de avião e as asas. Quase uma redundância da situação – avistava a asa do avião onde eu voava, mas procurando ver a asa sul ou norte de uma cidade inventada.
A imagem que imaginei encontrar vendo Brasília do alto não foi encontrada (talvez seja parte de uma imaginação acerca de uma cidade imaginada). Se o desenho do avião na planta baixa da cidade não foi evidente nem visível, o que se tornou essencial na imagem desta foram as linhas retas. Todas as cidades, de algum modo, guardam certa geometria em sua estrutura. Mas Brasília é especialmente geometrizada. A primeira marcação no solo para o começo da construção de Brasília foi de duas linhas ortogonais, como uma cruz. Ali começou a cidade.
Essa imposição da geometria sobre a natureza pode trazer a impressão de artificialidade para o meio. Mas não é só isso.
Do alto da Torre de TV, de onde avistamos o eixo monumental e as asas sul e norte, é possível perceber a simetria de sua urbanização. Se uma avenida desenha uma curva para a esquerda seguida de uma reta, do lado oposto (eixo N e S) se desenha a mesma forma, mas já espelhada. São duas partes de cidades simétricas que coexistem paralelamente.
Lembro de Italo Calvino, em “Cidades Invisíveis”, onde em um dos contos relata a história de uma cidade que é assim, “espelhada”, que convive com sua “cópia” paralela – e Calvino vai além, contando que os acontecimentos que se dão numa metade da cidade se repetem na outra metada.
 
Cidade de utopias perdidas
Brasília é uma cidade de utopias. O que dizer do sonho de construir, no meio do nada, uma cidade “ideal”, com obras de urbanismo e de arquitetura de extrema relevância? Brasília saiu do papel e se tornou sonho concretizado. Mas como, na prática, é capaz de funcionar uma cidade idealizada a tal ponto?
Passeando pela cidade, fica uma persistente sensação de decadência, de algo datado, que pertence a um  passado (recente) que um dia teve seu auge, sua glória. Hoje a cidade ainda é um projeto em construção, ao mesmo tempo em que é um pretérito perfeito, passado-passado, mas já sem glórias, passado em declínio.
O hotel em que ficamos no primeiro dia era assim. Decoração estilo anos 70, mas em pleca decadência: toalhas de mesa desbotadas, saguão com luzes apagadas por economia, carpete descolado, desbotado e, especialmente, um clime de uma passado de certo luxo mas já totalmente perdido.Essa impressão não se restringiu ao hotel. Andando pelas super-quadras, tal decadência persiste: grama por cortar, edivídios (todos quase iguais) com sinais desse passado perdido.
Há uma enorme diferença entre um passado que é valorizado e respeitado no presente para um passado já sem glória, sem luxo, e ainda totalmente desvalorizado, desrespeitado, decadente.
Impossível não lembrar do artista Robert Smithson, quando constata, ao visitar Passaic, em New Jersey, que as construções modernas já nascem ruínas antes mesmo de estarem concluídas.
Essa observação não é privilégio de Passaic nem de qualquer cidade em especial. Fala de uma modernidade, que é tão ansiosa para ter sempre o novo que termina por consumir-se a si própria: ao mesmo tempo em que almeja sempre o novo, produz um sem fim de velharias, “ruínas da modernidade”.
Brasília é um sonho concretizado do modernismo – e também por isso é tanto ruína quanto já foi novo um dia.
O que talvez seja ainda mais curioso seja o fato de o poder do Brasil estar concentrado nessa mesma cidade, entre as “ruínas” do modernismo. Brasília parece ser uma cidade parada no tempo, voltada para um futuro que era imaginado no passado e que já não guarda esperança de voltar a tempos áureos.
O poder político em nosso país está geograficamente situado num lugar utópico que se tornou realidade, sendo hoje um território de passados que são sempre velhos (nunca antigos), um lugar de ruínas de futuros abandonados. Será possível acreditar na política do nosso país?
 
Brasil: Brasília
    A decadência de Brasília me faz pensar na falta de esperança com um futuro do Brasil. Brasília é uma cidade sonhada, planejada, um projeto arrojado de se construir no meio do “nada”, o centro político do país.
    Brasília mostra uma espécie de utopia voltada para o futuro, para um país do futuro, mas uma utopia já perdida, já gasta, passada, marcada pelo tempo. Brasília é uma cidade do passado – sem passado histórico mas com passado datado, marcado por uma época em que se acreditou que Brasília seria uma cidade cosmopolita. Como disse o próprio Lucio Costa:
 
“isso tudo é diferente do que eu tinha imaginado para esse centro urbano, como coisa requintada, meio cosmopolita. Mas não é. Quem tomou conta dele foram esses brasileiros verdadeiros que construíram a cidade e estão aí legitimamente. É o Brasil… eu fiquei orgulhoso disso, fiquei satisfeito. É isto. Eles estão com a razão, eu é que estava errado” (citado em Lucio Costa, por Guilherme Wisnik, p.12)
 
Há um descompasso difícil de entender em Brasília. Quando li essa declaração de Lucio Costa, compreendi: é uma cidade planejada que escapou  aos planos, que deveria ser “coisa requintada, meio cosmopolita”, mas não é, é Brasil. É um plano que saiu do controle, a cidade que se fez com o povo que vive nela, não com os sonhos de urbanismo. Brasília é um pouco Frankenstein por isso, o projeto do criador que toma vida própria e então este perde o controle da criatura.
 
    Brasília é esse lugar estranho. É toda passado recente, tudo é novo já sendo velho. Essa cidade me faz pensar que o Brasil também é assim, um lugar potencialmente incrível (pela criatividade e pela capacidade de realização de sonhos e projetos) mas sem perspectiva de um futuro mais justo, mais igual, mais honesto.
 
    Brasília é uma cidade sem calçadas, sem lugar para pobre morar ou circular. É uma cidade absolutamente elitista (embora no projeto o sonho talvez fosse outro), onde só vive a cidade quem tem boas condições financeiras. Uma cidade pensada para não misturar classes sociais, para a classe média não encontrar os pobres – que além de morarem fora do plano piloto, não tem transporte público adequado, nem como atravessar ruas em segurança, nem como andar em calçadas se não for dentro das super-quadras.  Um lugar de exclusão, de desigualdade. É ainda um lugar de poder, de circulação de muito dinheiro, de oportunidades de trabalho.  Ainda hoje, as cidades satélites recebem muitos retirantes nordestinos, que já não vão em grandes quantidades para São Paulo, mas continuam à procura de um futuro melhor.
 
    Conhecer Brasília me deixou extremamente pessimista em relação ao Brasil.
    Brasil: Brasília.
    Futuro gasto, esperança em ruína.
 
 
A necessidade de viajar
    É incrível como o hábito toma conta rapidamente de nossas percepções. Conhecer Brasília foi impactante, revoltante até, uma experiência que nenhum livro de urbanismo seria capaz de transmitir.
    Nada substitui a vivência, isto é certo.
    Mas também nada é tão potente quanto à estranheza que sentimos quando vamos para um lugar desconhecido. É uma percepção poderosa, concentrada. Após poucos dias de permanência em um lugar desconhecido, já começamos a nos habituar (novamente voltar ao estado passivo do hábito) com o que até então era novo e estranho.
    Viajar é tão bom, tão fascinante, justamente porque propicia essa sensação. Mas não só nas viagens sentimos isso. Com a arte, nossa percepção pode ser renovada sem sairmos fisicamente de onde estamos.
    
Por isso, se eu fosse uma viajante provavelmente não teria a necessidade de trabalhar com arte. Há algo nas viagens que é tão potente que mantém nossa percepção e desejos deslocados.
Essa é uma questão muito presente em meus trabalhos (ou para mim quando trabalho): o desejo de deslocar essa percepção do hábitopara o “novo”, para algo além do habitual (não o novo como algo nunca visto, mas como uma outra maneira de ver, perceber o mundo). Olhar para além do habitual.
 
 
De volta ao caos
    Depois de Brasília, fui a São Paulo. Foi a primeira vez, depois de muitos anos, que aquele caos urbano me alegrou. A cidade espontânea, que se constrói de forma autônoma e quem sabe aleatória – o oposto da cidade planejada, a qual se tenta manter o controle, ainda que isso seja improvável (ou impossível) em uma cidade.
    Porto Alegre é, por fim, um ponto neutro, cidade sem brilhos nem encantamentos, mas também sem grandes incômodos. Talvez seja só um porto.
    Viajar pelo Brasil é difícil. Não por questões práticas de turismo, mas porque a realidade do nosso país é tão triste e desigual que fica difícil manter a esperança num futuro melhor.
    Porto Alegre não é melhor do que nenhuma cidade. Continua sendo o porto, talvez apenas isso – e isso talvez já seja muito.
 
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dezembro de 2006