Barcelona, te estás equivocando
 
 
Porque tanto perderse tanto buscarse sin encontrarse
me encierran los muros de todas partes
Barcelona te estás equivocando no puedes seguir ignorando
que el mundo sea otra cosa y volar como mariposa.
Barcelona hace un calor que me deja
fría por dentro con este vicio de vivir mintiendo
que bonito sería tu mar si supiera yo nadar.
Barcelona y mientras está llena de cara de gente extranjera,
conocida, desconocida y vuelta a ser transparente.
No existo más Barcelona…
si no es cosa de tus ritos (o gritos?) tu laberinto extrovertido.
No he encontrado la razón porque me duele el corazón
porque es tan fuerte que sólo podré vivirte en la distancia
y escribirte una canción.
Te quiero Barcelona
(ellas en el poder… ellas en el poder …
Barcelona es poderosa…) 
 
“Barcelona”, Giulia & Los Tellarini
música tema do filme Vicky Christina Barcelona.
 
 
 
Quando soube que Woody Allen estava filmando em Barcelona, comecei a contar os dias para assistir o seu filme. Que olhar podia o cineasta aportar sobre Barcelona? Como representaria essa cidade em seu filme? Mas, junto com a expectativa, havia um certo receio de como esse olhar estrangeiro veria a cidade da moda na Europa e no mundo.
 
É fácil deslumbrar-se com Barcelona. Uma cidade européia um centro histórico medieval (atualmente já muito bem conservado), uma cidade com um urbanismo e arquitura admiráveis, uma cidade à beira-mar, uma cidade espanhola (com o calor latino que se espera encontrar). É atualmente um dos destinos mais procurados da Europa, especialmente por jovens de todo o mundo.
 
Barcelona virou grife, virou objeto do desejo. Uma cidade que construiu seu caminho até chegar a ser o que é hoje, um modelo entre as cidades do mundo. Seria ilusão pensar que Barcelona sempre foi uma cidade moderna e atraente como hoje. Não que antes já não fosse um lugar interessante, mas a transformação ocorrida na Barcelona de 20 anos atrás para a cidade que é hoje, foi construída. E com o apoio de sua população.
 
É sem dúvida ainda uma cidade provinciana – embora disfarce muito bem ressaltando sua arquitetura e suas tantas lojas de objetos de design. Já era provinciana e continua sendo, mas hoje em dia é difícil perceber isso em uma estada rápida na cidade: visualmente, a cidade pulsa, moderna, cheia de estudantes do mundo todo e um sem fim de festas, lojas e eventos culturais. Talvez essa mesma mentalidade provinciana tenha ajudado a construir a Barcelona de hoje.
 
Há 20 anos atrás, iniciou-se uma campanha do governo local com o objetivo de engajar a população na idéia de renovar Barcelona, de torná-la uma cidade bonita: “Posa’t Guapa!” ou “Ponte Guapa!” passou a ser o lema de uma cidade certamente preocupada com sua aparência. Incentivos foram (possivelmente ainda são) dados para as pessoas renovarem as fachadas dos seus prédios e casas. Levou-se uma Olimpíada para a cidade, com ganas de crescer, desenvolvendo assim partes da cidade antes esquecidas (tanto na região onde ficavam os dormitórios dos atletas – hoje um bairro totalmente renovado – quando no Mont Jüic, para citar alguns exemplos). A cidade projetou-se para o mundo: ali estava projetada a possibidade de uma Espanha renovada, longe de reis e rainhas, de grandes museus, uma aposta de renovação num continente onde poucas renovações são possíveis.
 
Barcelona cresceu. Não em extensão, mas dentro de si mesma. Para crescer, foi necessário renovar zonas antes desvalorizadas. A especulação imobiliária começou a dominar a cidade, talvez acentuada devido ao enorme número de estudantes estrangeiros que começaram a ir para a cidade. Ainda recentemente, as últimas regiões não-reformuladas da cidade foram “concluídas”: a zona onde está hoje o Fórum (Forum das Culturas, realizado em 2004), transformou-se numa das zonas mais caras da cidade, com arranha-céus à beira-mar que fazem Barcelona parecer um lugar comum.
 
Mas a reformulação urbana teve início ainda no século anterior. No início do século XIX, Barcelona era ainda uma cidade pequena formada por dois núcleos urbanos, a própria Barcelona (na época, situada na região medieval da cidade, o Bairro Gótico) e a Vila de Grácia (hoje, um bairro da cidade). É realizada então uma concorrência pública para definir o urbanismo da cidade, daquelas regiões entre os dois núcleos que haviam crescido. Ildenfons Cerdà, em 1859, ganha com o projeto que definia que toda a área ainda não planejada seria ocupada por uma retícula de quadras, todas iguais em formato octogonal, o Eixample (extensão, em catalão). A base do projeto de Cerdà era a de uma cidade igualitária e higiênica, modernista por excelência, e com uma ideologia socialista em sua raiz (a cidade seria igual em todas as partes; na prática, o projeto era mais autoritário do que podia parecer). O projeto foi executado, fazendo de Barcelona um lugar de refência no planejamento urbanístico. Contudo, apenas uma pequena parte do Eixample foi construído como se previa, incluindo os jardins dentro de cada quadra, para citar um exemplo. Logo, o resto do Eixample foi construído, acompanhado de uma especulação imobiliária (que parece fazer parte da história deste lugar, assim como de outros tantos) que deturpou algumas características originais do projeto, mas de qualquer modo manteve-se à formação reticular que desenha o mapa de Barcelona.
 
Acredito que Barcelona sempre teve uma idealização formal como o mais profundo de seus sonhos – e foi bem sucedida na sua realização. O curioso é que, mesmo hoje, quando a cidade já é um modelo para o mundo em termos urbanos, a ambição formalista persiste. Nos últimos anos, sumiram os grafites das ruas (uma marca de Barcelona e antes uma referência para o mundo pela originalidade de seus grafites), foram criadas multas para proibir o uso do espaço público de modo inadequado (regra pensada para atingir especialmente os jovens imigrantes que por ventura permaneçam nas calçadas de modo não interessante para a cidade), além de uma mania por limpeza incansável (e aqui permito-me lembrar de uma cena que presenciei: a noiva saía da igreja e seus convidados jogavam pétalas de rosas, que voavam pela rua; no mesmo momento, enquanto a noiva ainda descia os degraus da igreja, as calçadas já eram varridas por uma equipe de limpeza com vários funcionários).
 
Como tudo neste mundo e nesta vida, todas as situações têm sempre dois lados: o admirável que é uma cidade manter-se tão organizada, bonita e agradável enquanto, ao mesmo tempo, tornou-se o lugar da assepcia, da neurose, da repressão da liberdade mais básica do estar-na-rua (que muito tem a ver com o estilo de vida espanhol/catalão). Barcelona tornou-se não apenas modelo de cidade para o mundo, mas uma cidade que é modelo de si mesma. Como uma jovem anoréxica que não consegue ver sua própria imagem no espelho e acha que precisa continuar na sua busca sem fim por magreza, Barcelona procura tornar-se perfeita ao extremo.
 
Uma cidade não é feita apenas de aparências. As cidades têm sempre um algo mais que não é visível nas fotos que tiramos ou que vemos em revistas de viagem. Há sempre um algo mais que só se percebe quando se está no lugar, uma pulsão própria dos lugares – aquilo que nos move a conhecer, vivenciar novos lugares do mundo. Temo que Barcelona se perca de sua própria pulsão (sua essência como cidade) em nome de sua imagem.
 
O filme de Woody Allen é, naturalmente, um olhar estrangeiro para a cidade. Seria impossível comparar a Barcelona retratada em filmes de Almodóvar (nos poucos que mostram essa cidade), por exemplo, com a Barcelona de Allen. Pedro Almodóvar fala de dentro, o olhar de quem viveu e vive um lugar; Woody Allen fala como um turista, através de suas personagens também turistas na Espanha. Até as cores da cidade em seu filme tornam-se mais sépias, com tons baixos – talvez influenciado pela nebulosidade londrina.
 
No entanto, Vicky Christina Barcelona é um filme que retrata muito bem outras características próprias da cidade. Se Barcelona criou uma imagem de si mesma, criou também um imaginário ao redor da vida que se pode ter ali. Uma amiga dizia que todos que iam viver em Barcelona estavam em busca de alguma coisa que não sabiam bem o que era; essa afirmação sempre me disse muito sobre a cidade, embora eu nem sempre a tenha compreendido muito bem. Antes, eu pensava que era uma busca sem sentido, como fruto de uma vã desorientação. Hoje – especialmente depois de assistir ao filme do Woody Allen – penso que essa busca por algo que não se sabe bem o quê é uma imagem do desejo, uma inquietude sem direção, assim como a personagem Christina inicia e termina o filme. É o desejo que constitui o imaginário de Barcelona; a cidade não vendo só sua própria imagem, mas essa promessa (através do imaginário que criou) de realização de desejos desconhecidos, da descoberta do desejo em si mesmo.
 
Woody Allen filma a Barcelona do desejo, refaz a imagem do imaginário que os estrangeiros têm da cidade. Enquanto Almodóvar filma a Espanha de dentro deste desejo, das paixões, das pulsões exacerbadas, uma imagem fictícia de um país que acaba mostrando a própria essência espanhola. A atriz Penélope Cruz quando é filmada por Almodóvar, é uma atriz exuberante, belíssima, profunda; neste filme de Allen, Penélope é uma atriz bem mais franzina, exacerbada, embora ainda excelente (é óbvio que há a diferenças entre as personagens, mas mesmo a maneira como cada diretor aborda a mulher espanhola demonstra suas visões particulares sobre um mesmo lugar). Só fica faltando uma caracterização mais precisa da cultura catalã. Woody Allen aborda o ambiente cultural de Barcelona como sendo idêntica à cultura de Sevilha ou mesmo de Madrid; a bela Barcelona deve estar revoltada com essa indiferenciação…
 
Para além das relações com a cidade, o essencial do filme é a complexidade das paixões, sobre como conduzimos nossas vidas e buscas de nossos sonhos. Barcelona é um cenário perfeito para essa estória de paixões, dúvidas e pequenas loucuras. Barcelona es poderosa, diz a música-tema do filme.
 
 
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18 de novembro de 2008