Este texto escrevi assim que voltei de Barcelona, de um ano longe e cheio de saudades. A viagem me fez pensar cada vez mais nos mapas, nas cidades, nos deslocamentos.
Já não penso nas cidades. Porto Alegre, porto, casa, a cidade sem mapas, sem esquinas e sem dimensões. Cidade pontuada por pessoas, não por lugares. Porto Alegre é chegada, fim da vida de trânsitos.
Não pertencer a nenhum lugar me fez pensar nos lugares. Nenhuma cidade especial, mas a fascinação por cidades. Beira o vício.
Do que vivi restou (até agora) a lembrança em bloco, inúmeras cidades soterradas pela memória e por si mesmas.
Antes, queria ter tempo para pensar cada cidade em sua singularidade. Agora vejo que não é possível pensar a experiência de maneira diferente ao que ela foi.
Quisera seguir em trânsito, mas escolhi a vida de um lugar só. Não posso mais pensar todos os lugares ao mesmo tempo. Esqueci (d)as cidades.
Viver num lugar, ser um lugar é tê-lo como invisível. É como não tê-lo – é o lugar que nos tem.
Posição pouco favorável para a reflexão. Mas o trânsito freqüente, contínuo, pode chegar a ser insuportável. A constante reflexão trabalha contra a ação. Paraliza?
Aceito o sedentarismo para buscar minha própria ação, para tentar fazer visível algo que ainda não sei. Aceito a parada. Preciso dela.
Mas parar também me cega. Me conformo, não vejo as formas.
Aonde reencontrar as minhas cidades perdidas sem encenar Marco Polo?
Como pensar na cidade se esqueço que estou nela?
Como controlar minha memória em espaços e tempos tão distintos?
Ainda vejo o Montjüic velado por neblina e maresia, a noite vermelha. Paris vista do alto do avião, de algum edifício, ou mesmo da minha imaginação. De Londres não tenho visões – êxtase, alegria, alegria. Já não sei se Veneza algum dia existiu (o que se pode dizer de lugares que superam qualquer descrição?). Queria sentir de novo a emoção de chegar na Espanha, quando meses depois de estar em território espanhol saí em direção a Toledo. O que dizer?
Passei um ano apaixonada pelas cidades.
(e agora, que vivo numa que pouco me importa?)
Aprender a ver no mínimo. No mínimo que há em cada lugar.
Se minha vida tivesse sido feita de trânsitos como foi esse período, não creio que a arte estaria na minha vida. Com a arte busco ver, busco sentido. O trânsito não é mais pelo espaço – mas ocorre através da mente.
Ainda que os não-lugares sejam os lugares de trânsito, Porto Alegre parece ser lugar-nenhum. Lugar que oferece a reinvenção – não dos espaços, mas de cada um.
Quero querer viver em um ponto.