Sobre Teatro - Beckett + teatro e ator
 
Dois textos sobre teatro, escritos durante o 15.Porto Alegre Em Cena, em 2006.
 
 
Esperando Godot – Beckett
Porto Alegre, setembro de 2006
 
 
Após tanto tempo sem ir ao teatro, ficar duas horas sentada acompanhando a representação de praticamente dois atores em cena, parece algo extremamente monótono. Minha percepção adaptou-se a seriados americanos, a detetives, a mortes, assassinatos, ação, a solução de crimes ou desvendamento de mistérios.
 
Esperando Godot (de Beckett) é o oposto da ação. É espera, é tempo que passa sem sabermos como contá-lo, é a falta de objetivo, de solução, ausência de ação.
O reencontro com o teatro se deu com esse choque, com a crueza da coisa – os atores, o texto e nada mais. Justo aí está o maravilhoso do teatro. É um momento de certa comunhão, de respeito, de troca. Teatro é contar histórias e ouvir histórias. Atores são, afinal, contadores de histórias. Simples assim. Uma pessoa em cena e outras na platéia para ocorra teatro.
Esperando Godot me fez pensar na vida, na minha e na de tantas outras pessoas. O texto me contagiou, vejo em várias situações ou mesmo em encenações diversas (seriados, filmes, etc) pessoas ou personagens esperando sabe-se-lá-o-quê – ou, esperando Godot. É como se no texto de Beckett estivesse representado um complexo protótipo que pode depois ser percebido em diferentes situações em nossas vidas cotidianas. Beckett podia estar falando de um universo político específico, ter um foco em algum assunto, mas Esperando Godot vai além de tema fechado. Godot não pode ser interpretado como um fazendeiro de barbas brancas que nunca vem ao encontro dos dois personagens. Godot talvez seja aquilo que esperamos que aconteça, que venha até nós, mesmo sem sabermos o que exatamente esperamos. É como uma projeção da nossa capacidade de sermos passivos e esperarmos acontecimentos “espontâneos” sem nossa ação ou intervenção. O quanto uma atitude passiva como esta nos prejudica na vida? Quantas inúmeras vezes culpamos sabe-se-lá-o-quê por algo que nunca aconteceu ou deixou de acontecer? Esse inominável, essa “providência divina” – que poderia até ser interpretada como uma “mãozinha de Deus” – é personificada por Beckett com um sentido cruamente humano e até social, mas nada divino. Godot é tudo isso que esperamos, nossa espectativa em algo que nem sabemos dizer o que é, talvez a crença no destino, talvez a própria esperança. O que esperar quando não há nada mais o que se esperar? O que esperar quando já não se tem nada, quando já se perdeu até a noção do tempo, do espaço, do próprio meio em que se vive? O que esperar quando a memória já se esvaiu? Quando já nem lembramos – ou nem sabemos – quem realmente somos?
Godot nunca chega. Espera-se por algo/alguém/alguma coisa que nunca se corporifica, que nunca se torna realidade.
É uma falta de perspectiva sem tamanho, uma falta de rumo, uma desorientação no mundo absoluta. A desorientação e a expectativa tênue que se mantém naqueles personagens também está em cada um de nós.
De alguma maneira, em algum dia, em algum momento, esperamos Godot. Podemos passar uma vida esperando Godot. Também podemos tomar nosso rumo e assumir essa desorientação e esse não-saber-o-que-esperar, nem para onde exatamente estamos indo como uma situação inerente à nossa própria existência humana e não por isso deixarmos de agir, de concretizar objetivos, mesmo aqueles mais ínfimos.
Esperando Godot trata de uma questão que pode ser pensada através de dimensões ainda mais amplas, como o estar-no-mundo. De onde viemos e para onde vamos parecem ser ainda, e mais uma vez, a questão que persiste e perturba no texto de Beckett, questões que são levadas a uma dimensão tão humana que inevitavelmente acaba falando de nós mesmos. A própria peça trata de todos que esperamos um Godot que não aparece em cena durante as duas horas –  embora ele esteja em todos os minutos presente por sua ausência.
 
 
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O teatro e o ator
 
É sublime e perturbador. Teatro é algo tão simples que emociona. Uma história, um ator (um corpo, uma pessoa, alguém que existe em cena quase como um sobre-humano). Teatro é algo simples assim, como duas palavras poderiam resumir.
A peça “Daqui a duzentos anos” de Luís Mello neste 15º Porto Alegre Em Cena reverencia a própria condição do teatro. Sem pretensão, sem grandes efeitos, sem dissimulações, com quase nada. Sentamos todos em um semi-círculo (em um quadrado, quatro arquibancadas uma de frente para a outra), frente a frente. No centro, os atores. Tão próximo que dava para ver o brilho nos olhos de quem estava ali, entregue, exposto. O texto era de Tchekov, três curtas estórias contadas por três atores. Nada surpreende, nada deslumbra. Mas tudo encanta: ali acontece um encontro onde faz nascer teatro de onde era só um espaço vazio. É nessa simplicidade que a idéia do teatro em si mesma emociona, faz vibrar, chorar, sentir.
Já na montagem de “Othelo”, texto clássico de Shakespeare apresentado por um grupo da Lituânia (direção: Nekrosius), tudo é excesso. Uma encenação quase barroca de um texto clássica, plena de redundâncias, exageros, de um sem fim de objetos cênicos. Ali, a presença do ator é parte do espetáculo – mas não foco de toda a ação. A estória é adaptada com variações interessantes, como a presença constante da água no decorrer de toda a peça. “A água é traiçoeira”, diz o próprio Shakespeare através de algum dos seus personagens. A traição paira durante toda encenação, como os atores estivessem rodeados de água, como se fossem náufragos ou vivessem à beira de uma mar que se agita constantemente.
Elementos cênicos interessantes: uma porta que “chora”, gamelas que ora são pedras à margem de um rio, ora parecem caravanas carregadas por Othelo. Mas ao mesmo tempo em que os elementos cênicos encantam, ao longo das quatro horas de espetáculo a parafernália que ocupa o palco começa a parecer estorvo, excesso. O que encanta a princípio se desfaz ao longo da apresentação. O que falta? O que sobra?
Teatro não existe sem bons atores. O palco é lugar de representar o mundo – e através dos atores, tudo pode ser trazido à cena, tudo, todo o mundo se necessário for. É possível incluir vários elementos que auxiliem os atores a contar suas estórias, mas objeto nenhum, nenhum fogo, nem água, nem pratos quebrados, substituem uma boa atuação. Uma encenação com atores sem expressão cênica, sem trabalho corporal, é compromentida independemente do texto em questão ou da beleza cênica da coisa toda. O excesso de “Othelo” é perturbador, incômodo, no pior sentido da palavra: são quatro horas de um show sem consistência – inclusive onde a falta de concisão vem a prejudicar a peça.
Embora a peça “Daqui a duzentos anos” seja mediana, sem surpresas, ela ainda se destaca após assistir a montagem lituana de “Othelo”. O que numa é simplicidade e teatro puro, na outra é exagero e esvaziamento.
Assitir a “Othelo” foi um teste de resistência revoltante e desanimador, uma peça que me fez repensar o gosto que tenho pelo teatro. Ainda bem que a revolta com um espetáculo se dissolve quando assisto a outro, quando vejo o avesso do avesso do avesso do teatro.
 
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2006