Coisa de outro mundo
 
Deitar no meio de Manhattan, em plena noite de verão. O céu avermelhado, trânsito aéreo intenso, as luzes da cidade apagam as estrelas, as luzes dos edifícios acesas como um céu estrelado.
De costas pra grama úmida, não só eu mas centenas de pessoas. Como pretexto, um filme dos anos 50, The thing of the other world, uma ficção científica em preto e branco. De repente parece um encontro perfeito: o cinema em Nova York, o cinema nos Estados Unidos, no país do entretenimento a criação máxima da diversão, de amusement.
        Com as costas úmidas e um céu estreito, cercado de arranha-céus, assistindo um filme de ficção em uma ilha de fantasia, tudo parece mais do que real, presente perfeito.
Sobre “a coisa de outro mundo”, uma clara relação com o período do Marcartismo, relação tão explícita que ao final chega a ser óbvia. O personagem diz: “the message is: if you see something coming from the sky, report it. It can be a thing from other world. Watch the sky.” Atualmente, em todos os metrôs se anuncia: “if you see something, say something”. Ajude a combater o terrorismo denunciando qualquer anormalidade no metrô, no comportamento de alguém, o que quer que seja. Se antes o medo era do “outro” comunista, hoje o medo é provavelmente do outro islâmico, ou, para além de origens culturais, o medo pode ser encontrar uma mochila no chão.
    Durante todo o filme, dividi meu olhar entre tela de cinema e o céu agitado, carregado de nuvens, luzes, aviões, céu de Manhattan, ultra urbano, deslumbrante.
É estimulado um estado de total vigilância, onde todos são olhos atentos contra o terror – como antes eram olhos atentos contra os comunistas. Ironia a parte, mas hoje a “coisa” do outro mundo não é necessariamente de “outro mundo” mas compartilha o mesmo mundo, a mesma ilha, talvez uma mesma cultura – mas com outros objetivos. Se o outro como uma coisa de outro mundo causa medo, o outro como aquele que está sentado ao nosso lado no metrô causa paranóia.
Após 50 anos de The thing of the other world a questão do filme se tornou estranhamente atualizada: if see something, say something.
        Aqui, vejo tanto, há tanto pra ver, mas ainda não sei o que dizer.
 
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30 de julho de 2007