Hoje, organizando finalmente meu blog, encontrei textos antigos que escrevi em 2004, quando estava já quase voltando de Barcelona após 1 longo ano longe do país.
E, entre tantas besteiras, ainda gostei de alguns que estão aí:
Tempos sobrepostos?
Hoje toquei o passado como se fosse um objeto da minha mesa.
Textos, imagens, cartas trocadas, fui transportada para minha realidade mais real, minha vida sem viagens e de sonhos.
Meu passado já não parece meu.
Paris é objeto de possessão, simplesmente minha. (ou é Paris que me tem?)
Meu presente é de silêncio, tempo suspenso. Vazio pleno, possessão concretizada.
As viagens são transposições de tempos.
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As Passagens:
Hoje foi um dia de perder-me por Paris, de ser levada pelo acaso mesmo sem querer ir. Encontrei: Passagem Jofrey e Passagem du Paronama. As passagens! É emocionante ler Benjamin e acompanhar o que ele observou desses espaços. Agora visitando uma passagem hoje, o que é possível observar de fato? Como entender o que Benjamin falou desses lugares visitando uma passagem?
Talvez pouco se apreenda de uma passagem atual. Benjamin observou nesses lugares do passar uma outra realidade que se formava; o novo, as tantas mercadorias a serem consumidas ali expostas não indicavam o novo de fato, mas já um futuro ultrapassado, um futuro que mais tocava o passado. Ali se formava uma nova era do consumo?
Curioso que em Paris, a terra que viu nascer o embrião dos futuros Shoppings Centers rejeite esse filho pródigo. Se antes as Passagens de Paris significaram progresso e prosperidade, os centros comerciais atuais marcam a evolução de uma criação já sem lugar nessa cidade. Paris odeia os Shoppings mas ama seu passado: suas passagens são ainda hoje motivo orgulho e de páginas de guias de viagem.
Benjamin de fato foi audacioso (no mínimo corajoso) ao escolher tratar um tema tão pouco intelectualizado – um centro comercial – com sua nobre filosofia. Não creio que os franceses valorizariam um Benjamin do século XXI que abordasse os Shoppings de maneira semelhante.
Ainda: o que podemos de fato observar nas preservadas passagens de Paris?
Talvez as passagens sejam tão incompreensíveis atualmente como são as pinturas de Manet – para a sua época, chocantes e revolucionárias; hoje quase pinturas clássicas se vistas por um olhar menos atento e desinformado.
Precisamos de tanta informação assim para ver?
(O que é ver, afinal?)
Os resquícios de passado que permanecem em nosso tempo são invisíveis sem informação.
Apenas têm sentido em seu contexto.
O passado é transparente?
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Sobre Paris I
O que se pode dizer de Paris? O que dizer que ainda não foi dito por inúmeros escritores, pensadores e artistas?
Melhor assim, já não preciso dizer nada.
Viver o já dito e imaginar que um dia Paris foi original para alguém
Já é um relato possível.
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Dispersão:
Viva a dispersão! Hoje a rainha da dispersão merecia ser coroada.
Meio mês passou, segui a rua ao reverso, o tempo escorreu todo no percurso. A cidade convida e a dispersão aceita.
O tempo é quase líquido, escorre e infiltra tudo, depois deixa suas marcas de inundação.
Quando queremos agarrar, o tempo é gasoso, intocável, nos cerca mas não conseguimos apreendê-lo.
O tempo é mesmo abstrato, a tentativa de definí-lo é mero exercício de dispersão.
Mas hoje, no suposto dia da coroação da dispersão, posso pensar no tempo e tentar agarrá-lo – mais uma vez.
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