Tinha esquecido das tragédias. Faz um tempo que sou só alegria.
Do alto de um morro no Rio, Orfeu da Conceição desaba, é derrubado, morto, acabado.
Vejo o mito grego encenado em terras brasileiras, uma direção francesa impecável, tomando uma cerveja belga, comendo batatas fritas inglesas, em Nova York. Quase esqueço onde estou, mas tantas sirenes funcionam também para isso – para não deixar esquecer onde estamos, em terras americanas. Casualmente, um incêndio no prédio ao lado, tragédia encenada ao mesmo tempo de uma outra tão próxima.
É difícil sentir medo do incêndio, pois a ação dos bombeiros é tão exageramente eficiente, que não sobre margem para medo, insegurança, aliás, eles trabalham tanto por aqui que faz pensar que talvez seja rara a ocorrência realmente de uma tragédia.
É difícil deixar-se surpreender em terras americanas. Uma amiga me contava que havia visitado a exposição Bodys (dos corpos humanos expostos em detalhes, em fatias, em diversas modalidades) e que lá ouviu alguém reclamando: “não está muito bom, já vi melhores”. Viu melhor o quê? Viu alguma vícera mais real do que a real? Viu fatias humanas mais realistas do que, de fato, fatias humanas? É curioso que as representações “superem” a realidade – ou que ao menos vão mais além desta. A dimensão mais real do corpo humano talvez tenha sido a mais encenada delas, com sangue falso, víceras de plástico, mas com muitos efeitos, trilha sonora, close da câmara, uma edição dinâmica de um filme – cinema.
A tragédia super visibiliza um aspecto da vida, uma maneira de mostrar / contar uma história. Talvez hoje a supervisibilização de tudo seja o grande aspecto da nossa cultura, onde os olhos não são as melhores ferramentas para ver, mas instrumentos insuficientes em termos de nitidez, campo de visão, ponto de vista.
A supervisibilidade tanto do que é óbvio e rotineiro – como um edifício, por exemplo – ou do que é mais dificilmente visto – como o interior do corpo humano. Se quando olho para um edifício sou incapaz de ver todo ele, só posso vê-lo por partes, focando ora numa parte, ora noutra, isso mostra que a visão é limitada. Quando vejo as fotos de Gursky, tenho a impressão de estar diante de uma visão mais perfeita que o olhar. No entanto, essa visão é também construída, simulando uma realidade impossíve de se registrar de tal maneira.
Nossos olhos parecem incapazes de ver o mundo – mas a imagem construída possibilita uma visão mais do que perfeita. Às vezes é difícil ter uma dimensão da realidade e do presente, mas a tragédia coloca os fatos concretos dentro de outras perspectivas.
Se no mundo grego a imagem era algo degradado em relação às idéias, a tragédia já tinha essa mesma função hoje também exercida através da imagem, uma super-visibilização da realidade.
(Nova York, verão de 2007)
FOTOGRAFIA DE ANDREA GURSKY