Sofro de um vazio de palavras. Obrigo-me a escrever algo. Tenho que escrever algo específico, mas minha mente divaga, vaga, devaneia por tantos lugares que nem sei contar por onde ela vai.
Escrevo pra formar hábito. Escrevo pra voltar a escrever, é isso. Tenho pensado muito em minha vida, nos planos a traçar – e, especialmente, a realizar – e assim tenho esquecido do que é preciso lembrar, tenho imaginado o dispensável, refletido sobre o infinito.
Minha cabeça dói, como há dias.
Nova Iorque está presente em minha vida sem eu nunca ter estado lá. Está nos sonhos, nos nossos planos, nos documentários que vi essa semana. Penso em Robert Moses, uma espécie de Haussmman americano. Sujeitos extremamente euclidianos, carteseanos, ortogonais, arrogantes. Acreditavam que sua racionalidade podia ser facilmente imposta a qualquer espaço da natureza, independe de elementos intrínsicos ao lugar. Podiam facilmente entender as cidades como um aglomerado de construções que precisavam ser repensadas, destruídas, alinhadas, organizadas com imensas auto-estradas.
Como é possível construir uma auto-estrada no interior de uma cidade? Como é possível acreditar na necessidade de tanta velocidade dentro de um sistema complexo já existente, antes autônomo e com funções e necessidades intrínsicas a ele mesmo?
Quando lembro do Eixample (em Barcelona), de suas ruas largas e longamente retas, penso no quão incrível é uma cidade ter ruas como aquelas: lindas, organizadas, padronizadas. Admirável. Lembro então da árdua tarefa que era caminhar por suas ruas infinitamente longas, suas esquinas enviezadas e massantes, das ruas incansavelmente parecidas. Pouco a pouco, esqueço o nome de cada uma delas. Esqueço de edifícios que antes adorava passar na frente só para admirar seus traços art nouveau. Barcelona é apagada aos poucos da minha memória. Mas não esqueço sua estrutura, seu esqueleto, seu mapa. O encontro da cidade de ruas desordenadas e labirínticas da antiga cidade medieval com a racionalidade ortogonal da cidade moderna, o Eixample.
A grade foi a solução encontrada por Ildenfons Cerdà para unir vilas antes independentes dentro de uma cidade só – BCN. Entre Gràcia e o bairro Gótico, uma trama quadriculada – como uma malha, como um tecido observado bem de perto – é projetada nesse espaço intermediário. Fica a dúvida: esse espaço entre uma vila e outra era um vazio inabitado? Quantas casas foi preciso destruir para a construção dessa admirável Barcelona?
A modernização é, por um lado, fundamental para as cidades não se tornarem ainda mais caóticas com o passar do tempo. Por outro ponto de vista, a modernização é devastadora .
Verborragia inútil. Falo demais, pensamentos sem rumo, apenas encanto e saudade de uma cidade que odiei e que sinto falta. Apenas sonho e desejo de buscar outras cidades problemáticas e encantadoras, para depois odiá-las e sentir falta delas.
Fujo da rotina. É isso que me faz constantemente insatisfeita com as cidades onde vivo.
Invariavelmente insatisfeita.
Porto Alegre, 29 de julho de 2006