Porto Alegre, 10 de maio de 2005
Lamento as tantas viagens que não fiz nenhum caderno, nenhuma anotação. As fotos são capazes de mostrar os lugares, as situações. Mas e as vivências, as mudanças, os medos, descobertas?
O espaço de parar, digerir, guardar. O caderno.
E agora o Marrocos.
O que esperar dessa viagem?
Não há grandes monumentos, palácios, cartões postais já conhecidos. O que há para ser visto?
Imagino uma viagem-experiência. Viagem-mergulho. Viagem-imersão. Viagem de vivências, das experiências, dos cheiros, das culturas.
Sim, as culturas no plural. Entrar na África a pé? O que é realmente uma fronteira?
Entre Ceuta e a primeira cidade da África só se cruza a pé, não de ônibus.
Vou ansiosa por não entender, não ler, por tentar me refazer quando as referências mais óbvias se transformam no desconhecido.
Quero comprar jornais em árabe, fotografar placas, cartazes, tudo.
Sonho com as palavras pela cidade que para mim serão palavras-imagens.
Só sonho, por hora.
Guarulhos - SP, 22 de maio de 2005
Em trânsito. De repente a lembrança vem. Não em partes, mas de uma vez só, como se nunca tivesse chegado a ser lembrança. O acontecimento em si, a sensação ela mesma: tudo parece ter ficado em suspensão por algum tempo e agora, em trânsito, reencontro o que já parecia invisível.
Um aeroporto, um dia em lugar nenhum, apenas indo.
Às vezes nem sei porque quando volto quero começar a ir de novo. Seria para perder e reencontrar essas sensações suspensas? Eu encontrar eu? Ou só pelo prazer de ir?
Suspenso também é o transporte, o deixar-se levar. As nuvens vistas de cima parecem deserto branco, sólido ao mesmo tempo que etéreo.
Por que sonhar com desertos?
Não bastaria voar?
Em trânsito, 27 de maio de 2005
I –
Pegamos o trem que saía de Madrid e ía até Algeciras. Gran Luxo Clase Doble. Para nosotros sí, ¡un verdadero lujo! Luxo que já não é mais, que quase já soa como decadência.
Para nós, quase uma brincadeira de crianças, uma mini-casa só nossa, a mesa virava pia, duas camas no alto, a janela que abria com manivela.
A expectativa era grande. Descer todo o território espanhol até Algeciras, cidade-porto do estreito de Gibraltar.
Até então, nenhuma estranheza, nenhum sinal de mundo árabe, nenhum sinal do incompreensível, tudo ainda europeizado, imaginável, ainda nosso mundo. Começo a desconfiar: será que essa estranheza é possível? Não é apenas um delírio arrogante de turistas ocidentais?
Vamos aos detalhes: desci com a Maradona (nossa mala gorducha) do trem, dois degraus apenas mas passos difíceis, estou sobrecarregada outra vez. Conseguirei algum dia viajar sem bagagem? Sem procriar bagagens?
Ali estava: uma pequena pichação no poste escrita em árabe. Em silêncio penso se finalmente começo a encontrar algo. E segue tudo igual: a estação de trem poderia estar em qualquer lugar da Europa, igual, igual a qualquer outra.
Chega a hora de colocar em prática o que planejamos durante várias noites. Agora temos que comprar os billetes (tickets) de Algeciras a Ceuta. O Ferryboat que nos fará cruzar aquilo que parece um detalhe no mapa, o que parece mínimo. O Estreito de Gibraltar.
Por que na hora de comprar as passagens não confio na loja do marroquino? Será que eu também penso encontrar os 40 ladrões de Ali-Babá em qualquer esquina? Não quero pensar assim mas temo, nesse momento, ter encontrado em mim um lado eurocêntrico qualquer.
Pois vamos à loja do respitável senhor espanhol com sua cabeça coberta de bracos fios de cabelo. Quase um vovô. Não só nas aparências mas nos conselhos também.
Por fim decidimos fazer o que o marroquino disse e o espanhol repetiu: vayan por Tanger, por allí es más sencillo, pues lo sabeis, las relacciones entre Marruecos y España no van muy bien en Ceuta.
O porto é enorme, talvez tão grande como qualquer outro, mas para mim ele toma dimensão ainda maiores. O embarque é pelo vazio do porto, inúmeros corredores e estruturas para os viajantes que parecem não ter vindo até aqui. Vazio, vazio. Os detectores de metais desligados. Passaportes carimbados: estamos fora da Europa.
E a estranheza, cadê? As informações que o respeitável espanhol nos passou são escritas de forma tão ilegível que, por rápidos instantes, penso que ele escreve em árabe. Estou ansiosa para ver a escrita desse povo. Penso que essa letra ocidental já ilegível, borrosa, mutante, representa essa passagem entre dois continentes.
Agora a balsa. Para minha ignorância, é um navio mesmo. Já não preciso procurar as estranhezas, elas vêm, surgem à minha frente. O senhor descalço reza em um tapete. Era o momento da prece, aquele gesto que eu precisava fazer como alongamento na fisioterapia aqui é carregado de simbologias e significados.
Saímos às 11horas e chegaremos às 11horas. A travessia é tempo inexistente, tempo de passagem que não passa. O fuso-horário é de duas horas.
O Ferryboat está vazio. Tudo vazio. Parece que por aqui passam poucos viajantes.
O Nik e mais dois meninos de mochila observam empolgados o vai e vem desse porto. Eu não estou ali, estou escrevendo, corpo presente tentando segurar instantes.
Minha presença é reiterada por olhares constantes de alguns marroquinos que estão na balsa. Quanto estranha eu sou para eles?
Já saímos da Europa e ainda não chegamos na África. Literalmente um não-lugar, ao menos não nominável. Depois do avião, do trilho do trem, das caminhadas, agora vamos por água cruzar esse trecho mínimo do mapa que parece mínimo também a vários imigrantes que tentam cruzá-lo a nado. Alguns chegam, outros não.
Nós agora vamos. Indo, indo… a viagem começou.
II –
Tenho muito sono. Em Madrid, a cidade onde menos se dorme na Espanha, precisei deixar a movida para dormir… queria ter visto todo o percurso de Madrid a Algeciras, avistar Córdoba, mas nada. Só sono. Profundo. As pessoas conversam e se conhecem no Ferry, e eu durmo.
Durmo entre dois continentes, no mar que é de sonhos para muitos, mas outros sonhos que não do sono. Nadam para um futuro melhor (grande sonho).
O sonho em si é sono da realidade. Essa palavra já começa a me soar estranha, estranheza em mim que queria só sonhar sem dormir, deixar a realidade sem deixar de ver.
Fès – Marrocos, 31 de maio de 2005
III – [sobre Chefchaouen]
O diário que pretendia fazer ficou em suspenso por vários dias.
De Chefchaouen a Fès, caminhos curvos, tortuosos, um mergulho na vida dos marroquinos, a música árabe, as roupas, a escrita, a fala e um pouco de enjôo.
Chaouen, linda, só descritível como um céu. Uma variação entre brancos e azuis luminosos, entre curvas e perfumes.
A menta, abundante tempero, não faz parte apenas das comidas, mas toma conta da atmosfera da cidade. Suas imensas montanhas, vultos na noite, onipresentes de dia.
Chegar em Chefchaouen foi exaustivo, estranho, quase assustador. Entrar em sua medina nos fez esquecer qualquer dificuldade anterior. Lindo. Simplesmente lindo.
E suas crianças as mais simpáticas, encantadoras. Crianças fãs de stilo. As canetas que demos a elas viraram fofocas na pequena Chaouen e depois, por onde andávamos pela medina, as outras crianças nos pediam stilo, stilo…
Quando partimos de Chaouen todos nos desajavam boa viagem, na língua que conheciam, espanhol, francês ou inglês.
IV –
O Sol se põe em Fès. Esse é o terceiro dia na chamada cidade – ainda que Fès seja toda, toda cor-de-terra, amarela, ocre, bege.
É o terceiro dia aqui mas pouco saí do Riad onde estamos. Nosso palácio, tipicamente árabe: se encontra num beco escuro e sujo, uma enorme porta e, dentro, um deslumbre só. Lindo, fascinante, como estar vivendo num Alhambra que tivesse ganhado vida de novo. A fonte, os azulejos (azuis, se se permite essa redundância, já que o próprio nome carrega em si sua origem), o trabalho minucioso em gesso, as laranjeiras, as almofadas.
Aqui sou completa estrangeira. Estranha, externa, o outro.
Não sei se mergulhei no Marrocos ou se o Marrocos é que mergulhou em mim. Adoeci no primeiro dia em que cheguei em Fès, uma bactéria qualquer que só atinge os gringos. Da água, talvez. De alguma comida, não há como saber. Tampouco importa.
Mas minhas entranhas se reviravam, rejeitavam tudo e qualquer coisa. Rejeitava estar aqui. O caos de Fès. Os cheiros de Fès.
A música dos Berberes que cantavam para agradar turistas virou repulsa em meu enjôo, repulsa consumada, expelida, vômito, medo, desejo de ir embora.
A chamada para a prece da noite ressoou em mim, nas tripas mesmo, som hipnótico que se comunicava mais com o meu corpo do que com minha mente. Repulsa pura.
Todas as mesquitas da cidade ao mesmo tempo clamam por Alá, chamam as pessoas, contaminam o ar, estão por todos os lugares, não há como não ouví-los, são quase entorpecentes. Os cantos começam, as luzes se acendem. Paira no ar todo o Islã, todo o desconhecido, parece neblina forte nos cegando. Os chamados para a reza parecem ser a única coisa ordenada nessa cidade. O momento em que toda Fès se alinha, se harmoniza na dissonância.
Agora vivo meus primeiros momentos sem enjôo em Fès, os últimos momentos em Fès. Amanhã vamos a Marrakech, dormiremos ainda hoje em nosso refúgio-palácio-árabe.
V –
Os cheiros de Fès.
Além das cores de cada lugar, há o cheiro dos lugares.
De Chaouen ficou o pergume da menta, o doce (muito doce) cheiro do Amílscar. Até o enjôo de Chaouen foi doce.
De Fès a lembrança é do cheiro da fábrica de tingimento de couro. Profundo e horrível para mim. A amônia para tirar os pêlos do couro dos animais é conseguida com a mistura de cocô e xixi de vaca, óleo de peixe, gorduras animais, cérebros com não-sei-o-quê. Depois as cores. O homens mergulham as pernas inteiras nas bacias de barro (quase somente buracos); eles, o couro, as cores, o cheiro. Vergonhoso, mas prefiro as fotos disso tudo do que estar ali.
01 de junho, próximo a Rabat, no trem
VI –
A essas alturas, no meio da viagem de trem de Fès a Marrakech, começo a pensar nos meus bisavós que vieram da Síria. Quais seriam as semelhanças entre os árabes dali e os marroquinos? Minha busca é através da comida, talvez minha única herança deles. Mas aqui não tem tabule, nem babaganuj, nem kibe cru, nem o tahine quer dizer a mesma coisa.
Ontem o Nik comeu um tajine (o marroquino) de kefta com ovo e ali estava a comidinha caseira que a Mãe faz (que a Vó fazia?). Alguma relação?
Tento entender porque, em casa, temos a idéia de que os árabes são deprimidos, se lamentam muito, coisas assim. Mas tampouco essa “tristeza” eu encontro aqui.
Também me dou conta de que dentro do Marrocos as diferenças são inúmeras, então imagino o quão diferente é em relação à Síria.
O que vim buscar no Marrocos?
O que é que eu queria encontrar que ainda não encontrei?
Penso na minha família por parte da Vó e não entendo a imigranção dos meus bisavós.
Imagino que essa tal tristeza que víamos na família tenha a ver com a dificuldade enquanto imigrantes, num lugar demasiado provinciano e onde não havia uma comunidade árabe. Terra de italianos. A solidão para eles, o isolamento, talvez isso.
As referências se perderam, de geração em geração ficou apenas os saberes da mesa. A cozinha. As mulheres. Não são elas que transmitem as tradições?
VII –
Aqui não há camelos, só mulas. Não há camelos nem no deserto, só dromedários.
Já não faço questão de ir até o deserto. Ouvi dizer que lá é mais ocidental do que as cidades que visitamos. Mais turístico, só se pode ir de excursão.
Quando o sol é forte, os homens vestem o capuz de suas roupas, encima do chapéu. Talvez refresque. Acho que eles entendem mais de calor e Sol forte do que eu.
(…)
E de repente, o mar! Se avista da janela do trem o oceano que nos separa do Brasil. Azul, azul, Chaouen líquido.
(…)
O calor de repente superaqueceu o trem, nós em direção ao sul do Marrocos, lá o deserto, mas entre nós dois o silêncio e a concentração para esquecer o deserto simulado neste vagão.
Nosso oásis é feito de produtos americanos: Coca-Cola, pringles e um bom rock nos salva dessa sauna sobre trilhos.
Tenho vontade de dançar e cantar as músicas que estou ouvindo, de dar um beijo no Nik, de vestir um vestido curtinho. Aí está. As diferenças que eu buscava ver estão nessas coisas bem simples. No hábito, no que é invisível para os nossos olhos acostumados.
(durante toda a viagem usamos roupas que parecessem mais adequadas e discretas para a cultura marroquina e também em hábitos procurávamos ser o mais discretos possível, sem manifestações de carinho em público, sem olhar nos olhos das pessoas)
VIII –
É o trem do sono. Todos dormem, menos nós, entre animados com a viagem e super irritados com o calor. Trocamos os cadernos eu e o Nik, eu no mundo dele, ele dentro do meu. Nós dois. De repente nos demos conta do mundo lá fora, já mudado, próximo a Marrakech. Vermelho, terra vermelha contrastando com os cactus abundantes aqui.
A lata de Coca-Cola continua me chamando a atenção, escrita em árabe. Não há nada lá fora, só terra, espaço, cor e de vez em quando algumas construções ou já ruínas da mesma cor da terra, como se brotassem do solo.
Terra, vasta terra. Vazia. Seca. Imensa. Nada. Cenário de land-art. Mas não um lugar habitável. A risada da moça marroquina sentada ao meu lado desperta a todos na cabine.
Estamos quase chegando, ainda que seja difícil acreditar que quanto mais perto de coisa nenhuma mais perto estamos de Marrakech.
Marrakech, 01 de junho de 2005
IX –
Muito especial. O primeiro dia em Marrakech: muita música, cores, caos quase delirante. Nesta noite vi, como um presente, uma estrela cadente. A primeira de toda minha vida. Veio, foi, o tempo da surpresa, nem o tempo de uma palavra sequer. Do país que leva uma estrela em sua bandeira, guardo comigo a estrela mais incrível que já vi.
X –
Entre Aït Benhaddou e Ouarzazate, um calor escaldante, a lembrança de toda a viagem, do Hamam, das negociações, da praça de Marrakech e o receio de que a memória derreta nessa terra seca, onde as moscas são desesperadas por nos roubar um pouquinho d’água do canto da nossa boca ou do suor do corpo.
Até chegar lá, atravessamos todo o Atlas, entre muitas montanhas e curvas que pareciam um retorno. Meu estômago não suporta mais. No meio da paisagem, inúmeras fotos possíveis, fotos incríveis como as da National Geografic. Imagens só para lembrar, sem registro.
Porto Alegre, 09 de junho de 2005
XI –
Um vestígio. Os pêlos ainda estavam ali, no couro do chinelo, da baboucha. Estava ali. Persistência da origem. Esse detalhe me perseguiu durante dias, perturbando-me sem saber ao certo porquê.
Além dos pêlos, o cheiro. Cheiro do processo, pêlos da origem. Não era o que eu esperava de um chinelo, queria apenas não sentir, não saber, disfrutar com ignorância.
Tive crise de turismo no Marrocos. Não queria ser estranha, pretendia ser invisível.
Pretensão impossível naquele país. Talvez Orwell tenha sentido algo parecido nos anos 30 quando passou um inverno num quarto de hotel em Marrakech. Orwell pertubou-se por não conseguir comunicar-se com os simpáticos marroquinos. Não problema de idioma apenas, mas a incapacidade de ser confundido, de misturar-se com o povo, a incapacidade de não ser turista.
Marrocos agora é eco que ressoa em mim. Retumbante. Ainda presente, ainda que sem os cheiros, as cores, as músicas, os chamados pra reza, todos os sons. Eu trouxe migalhas desse mundo. Trouxe também esse detalhe perturbante, os pêlos no couro do chinelo. A evidência da pele.
Tudo contrasta com o branco da casa ocidental moderna: as cores desestruturaram a arrumação, uma dissonância visual.
Guardo em mim o deserto. Já tinha a imensidão seca em mim. O que quero ver. Mas ainda tem o Sol, o vento forte, o calor, a sede. A sede, o desejo de estar no vazio.
E isso é tudo.
Porto Alegre, 09 de junho e 02 de agosto de 2005
XII –
Há ainda a presença. Quando consegui achar que deixaria de me sentir turista, estranha, minha presença foi exigida. Por inteiro. Profunda.
O banho árabe, o Hamam, foi um aprofundamento ao mesmo tempo que uma profunda estranheza em relação à cultura marroquina. Mais que estranha, uma experiência profunda.
A humidade daquela sala de banho pouco iluminada, eu sem lentes pra ver melhor e ainda o vapor, quase neblina. Mas pude ver os olhares. A cor da pele, os volumes do corpo, o idioma que não entendo. Primeiro numa sala escura e muito quente. Depois, na sala intermediária, o banho. A massagem. Quase um retorno à infância, uma grande mãe cuidando de mim como se eu tivesse dois anos. Um mergulho naquelas imagens recorrentes na História da Arte, as cenas de banho. Dürer, Degas, Ingres.
Humidade que impregnou a memória. Agora é só lembrança passada. Já não turista, já não estranha, só o relato. Ficção da minha vida. A infância das imagens.
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