“Certa vez assisti a cenas de um filme amador filmado nas montanhas alpinas entre Alemanha e Áustria. A paisagem, foco central em toda a sequência de imagens, era intercalada com cenas íntimas de amigos ou família em uma casa no alto das montanhas. Essa casa era o Ninho da Águia (casa de campo de Hitler) e as filmagens haviam sido feitas por Eva Braun.

Este filme, que conheci por acaso anos atrás, construiu parte do imaginário que eu tinha sobre a Alemanha e os Alpes. Mas o início da série de trabalhos relacionadas ao tema só se desenvolveu posteriormente. Quando vivi em Munique, descobri em antiquários postais e fotografias antigas dos Alpes. Cartões postais usados, já enviados, postais que eram lembranças de uma visita às montanhas, fotografias que já pertenceram a álbuns de família.

A partir desta coleção de imagens, teve origem o trabalho “Oblivion”. O conjunto de cerca de 300 postais e fotos encontradas formam uma outra paisagem – esta de natureza mais abstrata. Cada uma destas imagens dos Alpes foi pintada, cobrindo de preto todas as aparições das montanhas. As silhuetas das montanhas deixam visível apenas um horizonte acidentado.

Há algo icônico nestas imagens alpinas, como se a sua própria natureza já se aproximasse à própria representação do lugar. Uma paisagem que contém nela mesma a impossibilidade de sua representação.

Ao lidar com estas reproduções das montanhas em cartões postais e fotografias encontradas, a questão que se colocou inicialmente foi a relação com a memória – uma memória individual, mas, especialmente, uma memória coletiva, histórica. Esta paisagem já é carregada de história, de referências relacionadas ao Romantismo Alemão, além da relação (menos direta) desta com o nazismo. E, ao lidar com esta paisagem específica, era como se a única reação possível que se poderia ter com as imagens deste lugar fosse uma espécie de apagamento: cobrir a imagem das montanhas. Pintar com tinta preta os postais e fotografias antigas parecia ser o modo possível de relacionar-me tanto com esta paisagem quanto com uma memória histórica coletiva.

A paisagem dos Alpes é tão icônica que pode ser percebida como uma representação em si do gênero paisagem. E, mesmo encobrindo a imagem das montanhas, a paisagem alpina ainda está em questão em “Oblivion”. Paisagem ainda visível através de suas silhuetas, é uma representação em si do modo de pensar a paisagem.

Lidar com a imagem dos Alpes através destas reproduções impressas, provocou a necessidade de então subir as montanhas, de estar na natureza e não apenas diante de representações desta.

Este período em que vivi na Alemanha foi, de algum modo, um processo de aproximação à natureza (*). Era como se o Romantismo Alemão estivesse enraizado ali, naquelas terras e paisagens, e contaminasse pouco a pouco também o meu modo de pensar e entender este lugar.

O contraste entre as imagens de montanhas e a natureza (a coisa em si) provocou outros desdobramentos em meus trabalhos. Reagir a imagens reproduzidas em postais dirige à uma relação da paisagem como ícone.

Como seria possível trabalhar com uma paisagem de dimensões tão grandiosas e sublimes que remetem a cenários artificiais, de uma natureza não-real? Qual relação entre homem e natureza é hoje ainda pertinente? Qual tipo de reação a este lugares/paisagens seria possível?

Como apreender uma paisagem inapreensível? Como lidar com uma realidade que, por si só, já parece uma reprodução do real?

Tendo estas questões em mente, iniciei o trabalho “Alpenprojekt”. Subindo as montanhas e parando em diferentes lugares, em atitude quase meditativa, recortando a silhueta das montanhas que estavam ali na minha frente. Considerando o desejo de apropriar-me desta paisagem, a única ação que me parecia possível diante de paisagens como aquelas era fazer desenhos das silhuetas das montanhas. Há uma impossibilidade de representação desta paisagem que fica implícita na ação que se repete nas várias locações. Os recortes em papel preto são sempre um outro elemento em relação àquela natureza: sempre falho, incompleto, parcial. Entretanto, são representações daquilo que parece irrepresentável pela força ou potência do lugar.

Entre os desenhos que construo com as mãos, recortando as silhuetas, e a natureza que se apresenta à minha frente, há a distância do pensamento. Há a distância entre o que se vê e o que pode ser representado, entre o pensamento racional e a força da natureza. A distância entre o mundo real (a coisa em si) e a representação do mundo. E, nesta distância entre as coisas, abre-se um espaço para as ideias encontrarem o mundo concreto.”

 

(*) Em ocasião de uma bolsa de estudos para artistas oferecida pelo DAAD (Deutscher Akademischer Austauschdienst), estudei de 2010 a 2011 com Peter Kogler na Akademie der Bildenden Künste, em Munique.