Ensaio sobre uma ordem das coisas

7 ideias para Ensaio sobre uma ordem das coisas:

1- O que se pode entender do mundo através dos mapas? O que os mapas nos dizem sobre convenções e representações do mundo?

2- Por que em desenhos de mapas predominam linhas horizontais e verticais onde uma superfície tridimensional do globo da Terra é projetada, seguindo uma lógica Cartesiana?

3- A linha do Equador marca a divisão simbólica entre Norte e Sul do mundo. Mais do que uma linha em um mapa, representa uma região na Terra onde fenômenos ocorrem: “Pot-au-noir” ou a “zona de convergência intertropical” faz com que a região da Linha do Equador sofra de marasmo de ventos ou tempestades repentinas.

O que aconteceria se a Linha do Equador se projetasse concretamente sobre a Terra, partindo a Terra em 2 partes, onde nem o Norte nem o Sul existisse?

4- Qual o sentido político de uma divisão do mundo entre hemisférios norte e sul?

5- Para além de um pensamento relacionado aos espaços físicos da Terra e suas projeções em forma de mapas, o tempo ou a duração dos ciclos é outro vetor a ser relativizado.

Como pensar sobre a duração dos ciclos, a duração dos dias e das noites, senão através da própria relatividade do tempo?

6- Como pensar as cidades através do desenho de seu urbanismo? De que modo os mapas de cidades podem levar a um pensamento sobre outras cidades possíveis?

7- De que modo as utopias podem nos fazer pensar em outras representações de mundo ou em uma outra ordem das coisas?

Marina Camargo, 2015

Ensaio sobre uma ordem das coisas – exposição individual no Goethe-Institut Porto Alegre (Brasil), de 10 setembro a 17 de outubro de 2015.


Dos mapas em ruínas

Em um conto brevíssimo mas inspirado, Borges lembra do mapa de um império que alcançava o exato tamanho do império, coincidindo ponto por ponto com ele, mapa e império, império e mapa, em uma inesperada escala de 1 para 1. Esse delírio cartográfico, passadas algumas gerações, revelava-se inútil e terminava abandonado nos desertos, entregue às inclemências do Sol e dos invernos.

O relato, de alguma forma, dá conta do fracasso não apenas desse mapa desabusado e imenso, mas, de modo geral, de qualquer sistema de representação: quase sempre aquém, desgraçadamente fadado à imperfeição, no mais das vezes inútil. Eis aí, suponho, um dos vetores conceituais deste Ensaio de uma ordem das coisas, de Marina Camargo.

Marina sabe da imprecisão e das falhas das nossas representações – sejam elas artísticas ou científicas, geográficas ou históricas, ancoradas em textos ou imagens, ou mesmo em ambos. Tente você mesmo: pegue dois mapas iguais, que correspondam precisamente às mesmas fronteiras e que sigam exatamente a mesma escala. Agora sobreponha um ao outro. Nunca hão de coincidir. Pergunte-se ainda: como transpor, de modo fiel e reconciliável, o relevo da Terra à circularidade do globo? A curvatura do globo à planaridade do mapa?

Ocorre que a artista, antes de lamentar esses infortúnios, trata de saboreá-los. Tanto o rigor quanto o insucesso das representações são aceitos e bem-vindos.

Acontece ainda que, nesta nova série, essa primeira percepção se combina ao gosto pelos mapas como objetos, como disposições coordenadas ou itens de coleção, papeladas que se dobram e se desdobram, com seus códigos próprios, suas grades particulares, sua linguagem consensual. Tudo disponível como matéria para o desenho. Basta reordenar.

Os mapas, por fim, despontam como depoimentos gráficos – de incontornável pendor político – sobre territórios já definidos e já percorridos, ou a serem conquistados e reconhecidos, desejados. Marina recorta os mapas, remonta as geografias, aponta para os vazios que, mesmo sem querer, podem revelar uma presença. Os mapas, como queria Borges, subsistem como ruínas.

Eduardo Veras

Crítico e historiador da arte, professor do Instituto de Artes da UFRGS