DESVIO

[ 2017 ]


Desvio consiste no deslocamento de um formigueiro que se desenvolveu junto a um dos prédios da fundação FVCB, onde o trabalho foi realizado. Além do deslocamento do formigueiro para 1,5m a frente de sua localização original, dois desenhos idênticos reproduzindo os contornos do formigueiro são recortados em aço. Uma destas peças serve como uma base para o deslocamento de toda a estrutura orgânica do formigueiro. A segunda peça é disposta ao lado do local onde originalmente estava o formigueiro. Os desenhos foram feitos em aço inox polido, fazendo com que a superfície espelhada se diferencie da paisagem ao redor, ao mesmo tempo em que se camufla com o meio ambiente.

Intervenção e instalação com placas de aço inox e  formigueiro.

Dimensões: 400x400cm (instalação) e 55x45x90cm (cada peça de aço inox)

A forma original do formigueiro remetia a um pequeno morro, como uma miniatura de uma montanha. No entanto, à diferença da forma de montes ou montanhas, essa era uma forma orgânica totalmente viva, habitada e construída por animais. Mover essa estrutura significaria mover algo para além de uma forma física. Significaria transpor uma estrutura complexa, possivelmente desalojando uma colônia de animais. O gesto que pode parecer mínimo em termos formais – o deslocamento do formigueiro para 1,5m a frente de sua localização original – causaria uma imensa interferência naquele ecossistema.

Durante a montagem do trabalho, descobriu-se que se tratava de uma sobreposição de colônias: um cupinzeiro havia sido construído junto ao edifício do acervo da fundação, e junto a ele outros formigueiros coabitavam aquela estrutura. Toda a estrutura que estava sobre a terra foi deslocada: o formigueiro-cupinzeiro foi posto sobre a estrutura de aço inox e então movida para frente, cerca de 1,5m do seu local original.

Logo se definiu uma relação formal entre o formigueiro-cupinzeiro deslocado sobre a estrutura metálica e reflexiva com o vazio do local de origem dessa estrutura: uma espécie de buraco junto a restos do cupinzeiro grudados na parede do prédio formavam um registro da ausência deixada pela remoção da estrutura.

A outra peça de aço inox exatamente igual a utilizada no deslocamento do formigueiro-cupinzeiro foi disposta no chão, ao lado do vestígio deixado pela remoção. Ali, a forma bidimensional é menos testemunha do ato realizado e mais um índice que remete novamente à estrutura original do formigueiro-cupinzeiro. Uma representação bidimensional que faz referência à ausência da estrutura, mas se dirige também a ela como um relato visual do espaço ao seu redor. Assim, a superfície espelhada se torna uma espécie de sumidouro visual e nos afasta da relação orgânica e estrutural-estruturante do formigueiro deslocado. Embora se trate de duas formas idênticas, aquela usada para mover a forma orgânica e esta disposta ao lado da posição original do formigueiro, elas remetem a naturezas distintas e opostas.

Dois dias após a instalação do trabalho e do deslocamento do formigueiro-cupinzeiro, um novo monte de terra de aproximadamente 20cm de altura já havia sido criado no mesmo local. A atividade do formigueiro seguiu em funcionamento e a estrutura visível, acima da terra, começou a se refazer rapidamente. O vazio deixado pela remoção está sendo pouco a pouco preenchido por uma nova estrutura, no que parece ser uma persistência da forma, ou uma repetição da estrutura mesma que constitui essa forma.

Duas reproduções da forma original formam-se a partir da estrutura do original do formigueiro: aquelas bidimensionais produzidas em aço inox e o novo monte de terra que está sendo produzido pelo trabalho das formigas.

Trabalho realizado na área externa da Fundação Vera Chaves Barcellos, em Viamão, em ocasião da exposição (de 02 de setembro a 16 de dezembro de 2017).

Agradecimentos a: Fundação Vera Chaves Barcellos, Ío (Laura Cattani e Munir Klamt), Adilson Tubin e Balduino Alves.