TEXTO PUBLICADO NA REVISTA ESPANHOLA DARDO EM DEZEMBRO DE 2011
A 8a Bienal do Mercosul seguiu até o dia 15 de Novembro em Porto Alegre, capital do Estado mais ao sul do Brasil, porção que faz fronteira com Argentina e Uruguai. Até por essa destacada situação geográfica, o corpo do evento teve uma relevante participação latino-americana, mais forte que, por exemplo, a Bienal de São Paulo. Assinaram a curadoria-geral antes do colombiano José Roca, que comandou a equipe nesta edição, a argentina Victoria Noorthoorn, à frente da Bienal de Lyon atualmente em cartaz, e o venezuelano Gabriel Pérez-Barreiro, entre outros nomes reconhecidos.
Por ostentar ter no título um tratado econômico- comercial, o projeto curatorial privilegiou, sob o tema Ensaios de Geopoética, questionamentos sobre o que hoje é o significado de um Estado, uma nação, e seus decorrentes conflitos, fronteiras e nacionalidades possíveis, dentro de um mundo globalizado e de limites borrados. Além de Roca, a equipe foi constituída pela chilena Alexia Tala, pelos brasileiros Cauê Alves, Fernanda Albuquerque e Aracy Amaral e pelos mexicanos Paola Santoscoy e Pablo Helguera.
O time dividiu a mostra em três tipos de estratégias: expositivas, ativadoras e projeto pedagógico. Nas duas tipologias iniciais, sete segmentos se dividiam em vários espaços da capital gaúcha. Como parte expositiva algo mais estanque, se incluíam as seções Geopoéticas, nos armazéns do cais portuário; Além Fronteiras, no Museu de Arte do Rio Grande do Sul; e Eugenio Dittborn, individual dedicada à obra do artista chileno cuja importância ultrapassa as fronteiras do continente americano, sediada no Santander Cultural. Como ativações de espaços, faziam parte Cidade Não Vista, com intervenções de artistas pelo tecido urbano da cidade; Casa M, um espaço de debates, ações, exposições curtas e performances; e Continentes, uma troca de experiências entre ateliês alternativos da América Latina, na qual o Subterrânea, tradicional espaço desse viés em Porto Alegre, exercia um papel importante. Cadernos de Viagem, espécie de programa de residência destinada a artistas de fora do Rio Grande do Sul, teve parte de seus resultados visuais exibidos no Cais e parte mostrados em museus de cidades do interior do Estado, locais em que produções contemporâneas são pouco vistas. Era considerado pelo staff curatorial uma mescla de estratégia expositiva e ativadora.
No início do ano, Roca soltou no blog da mostra um manifesto sobre princípios curatoriais, com 20 itens. Interessante peça de leitura (disponível online neste link), levantou discussões por meio de tópicos como “Uma exposição não é uma biblioteca”, “Uma exposição não é um cineclube”, “Uma bienal não é uma Exposição Universal” e “Uma bienal não é uma feira de tecnologia”, questionamentos simples, mas que são deixados de lado por nomes e abordagens mundo afora em um circuito abarrotado de grandes mostras realizadas a cada dois anos.
Depois de tais proposições provocativas, fica a questão: Roca e equipe foram bem-sucedidos nessa empreitada? A resposta é sim, apesar de falhas, normais a quaisquer eventos desse porte e menos graves. O trunfo da 8a edição foi amarrar muito bem eixos expositivos que poderiam se perder num evento grandioso, no mau sentido. Assim, o corpo central da mostra, nos cais do porto, tinha expografia discreta e não se excedeu em número de obras e abordagens. Lá perto, um visitante poderia ver em dois dias, com calma, caminhando na zona central de Porto Alegre exposições muito bem amarradas (Além Fronteiras, organizada pela veterana Aracy Amaral, Eugenio Dittborn e suas Pinturas Aeropostais, com curadoria do próprio Roca) e intervenções que possibilitavam novos olhares sobre paisagens “gastas” na visão dos moradores da capital do Estado, dentro da seção Cidade Não Vista. O segmento Cadernos de Viagem propiciou a visitantes do corpo principal da mostra acompanhar resultados interessantes a partir de incursões dos artistas por lugares menos conhecidos, sem contar a importância de públicos não acostumados à arte contemporânea ter contato com produções variadas e feitas em seu entorno.
"EM VIAGEM PELA REGIÃO DOS PAMPAS, COM INCURSÕES AO RIO GRANDE DO SUL E AO URUGUAI, CAMARGO FOI CRIANDO UMA CARTOGRAFIA POÉTICA PRÓPRIA, ALIMENTANDO- SE DO SUBSTRATO GEOGRÁFICO QUE PERCORRIA E, POR FIM, REALIZANDO TRABALHOS DE RESULTADOS INVEJÁVEIS"
OBRAS
É recompensador quando uma Bienal de âmbito internacional revela alguém com obra instigante, descoberta ao momento de vê-la em meio a nomes de trajetória muito mais extensa. Foi o caso de Mayana Redin (Campinas, 1984), artista que se divide entre Porto Alegre e Rio, na série Geografia de Encontros (2010/2011), exposta na seção Geopoéticas. Os desenhos consistíam na sobreposição de cartografias existentes nos mapas-múndi, que se encontravam na superfície de um papel vegetal simples, com contornos marcados pelo grafite. As linhas do Mar Morto se encontram com a do Monte Everest; os mares Negro, Vermelho e Amarelo se confundem; o Amazonas convivía com o Saara; dezenas de países sem mar se agrupavam em um conjunto único. Trabalho silencioso que cresce ao pensarmos em peças mais ruidosas sempre presentes em recortes bienais, desperta a atenção para uma jovem artista com pouco trânsito no circuito da arte brasileiro.
Marina Camargo (Maceió, 1980), que se divide entre Porto Alegre e Munique, foi outro dos acertos da curadoria de Aracy Amaral em Além Fronteiras. Com uma quase individual no Margs dentro da mostra, o projeto Tratado de Limites (2011) foi exibido em múltiplas linguagens (fotografia, ação, obra sonora, vídeo, escultura). Em viagem pela região dos pampas, com incursões ao Rio Grande do Sul e ao Uruguai, Camargo foi criando uma cartografia poética própria, alimentando-se do substrato geográfico que percorria e, por fim, realizando trabalhos de resultados invejáveis. As letras de concreto que simbolizam o centro geográfico da região em Tacuarembó, pequena cidade do Uruguai, registradas em foto e semienterradas, parecem o letreiro de uma Hollywood quase às avessas, mas que não deixa de ostentar marcadamente a identidade de um lugar. Identidade em forma de notas musicais mesclada ao forte vento local em Paisagem com Ondas (2011), obra sonora que mixa o natural e o construído. Importante destacar que a argentina radicada na Holanda Irene Kopelman (Córdoba, 1974), lado a lado de Camargo no espaço expositivo, também criou uma série de desenhos sutil a partir de referências visuais dos canyons da Serra Geral, no interior do Estado. Também merecem menção em Além Fronteiras os trabalhos de Felipe Cohen e Lucia Koch, artistas com maior trânsito na arte brasileira.
.jpg)
No segmento Geopoéticas, André Komatsu (São Paulo, 1979) apresentou a série O Estado das Coisas (2011), na qual cruza referências fortes da sua cidade natal e noções de desterritorialização e circulação maximizada. Em uma das obras, enredados a mastros de bandeiras, tênis quebravam o protocolo e subvertíam a rigidez de procedimentos diplomáticos e símbolos nacionais. Noutra peça, uma mesa circular com ventiladores em seu tampo giravam aleatoriamente e criavam rabiscos/limites no chão do cais. E uma instalação com um macaco utilizado em automóveis rompe a regularidade de um dry wall expositivo. A força da série de Komatsu faz ainda mais lamentarmos obras menos interessantes de nomes mais conhecidos no panorama brasileiro, como Paulo Climachauska e Marcelo Cidade (este colocado próximo a Komatsu, o que fatalmente gerava uma comparação, até pela temática e origem próximas), nesta seção da Bienal.
Vídeos feitos por Cristina Lucas, Melanie Smith e Miguel Angel Rios, todos artistas já com bastante visibilidade, pontuavam espaços expositivos com força; cada qual à sua maneira. No entanto, em Geopoéticas, Donna Conlon (Atlanta, 1966) e Jonathan Harker (Quito, 1975) exibiram em Drinking Song (2011) uma articulação audiovisual rara, com humor e iro- nia, ao emular uma publicidade de cerveja relacionada à conflituosa história do Panamá. Um efeito parecido à sobreposição de hinos dos países do Mercosul, tocado por sirenes em um pacato jardim de estilo francês dentro de um palacete de governo, assinado por Santiago Sierra. Hinos de Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai, Reproduzidos ao Mesmo Tempo e Continuamente (2007) talvez sintetize em bom tom as aspirações do projeto curatorial da 8a Bienal do Mercosul _ algo invisível, mas não silencioso, a reverberar fricções nos lugares mais insuspeitos, justamente o que a arte contemporânea deve fomentar. / MARIO GIOIA
TEXTO ORIGINALMENTE PUBLICADO NA REVISTA ESPANHOLA DARDO
Versión en Español:
UN MERCOSUR DE RUÍDOS Y VISUALIDADES
La 8a Bienal del Mercosur tuvo lugar hasta el día 15 de noviembre en Porto Alegre, capital del Estado más al sur de Brasil, territorio que hace frontera con Argentina y Uruguay. Debido a esa destacada situación geográfica, el corpus del evento tuvo una relevante participación latino-americana, más fuerte que, por ejemplo, la Bienal de São Paulo. Antes que el colombiano José Roca, que dirigió el equipo en este edición, firmaron el comisariado la argentina Victoria Noorthoorn, al frente de de la Bienal de Lyon actualmente en cartel, y el venezolano Gabriel Pérez-Barreiro, entre otros nombres reconocidos.
Por ostentar tener en el título un tratado económico-comercial, el proyecto de comisariado privilegió, bajo el título Ensayos de Geopoética, cuestionamientos sobre lo que hoy es el significado de un Estado, una nación, y sus conflictos derivados, fronteras y nacionalidades posibles, dentro de
un mundo globalizado y de límites borrados. Más allá de Roca, el equipo fue constituido por la chilena Alexia Tala, por los brasileiros Cauê Alves, Fernanda Albuquerque y Aracy Amaral y por los mexicanos Paolo Santoscoy y Pablo Helguera.
El equipo dividió la muestra en tres tipos de estrategia: expositivas, acti- vadoras y de proyecto pedagógico. En las dos tipologías iniciales, siete segmentos se dividían en varios espacios de la capital gaucha. Como parte expositiva algo más estanca, se incluían las secciones Geopoéticas, en los almacenes del muelle portuario; Além Fronteiras [Mas allá de las fronteras] en el Museo de Arte de Rio Grande del Sur; y Eugenio Dittborn, individual dedicada a la obra del artista chileno cuya importancia sobrepasa las fronteras del continente americano, con sede en el Santander Cultural. Como activaciones de espacios, formaban parte Cidade Não Vista, con intervenciones de artistas por el tejido urbano de la ciudad; Casa M, un espacio de debates, acciones, exposiciones temporales y perfor- mances; y Continentes, un intercambio de experiencias entre talleres alternativos de América Latina, en el cual el Subterrânea, tradicional espacio de esta categoría en Porto Alegre, ejercía un papel importante. Cadernos de Viagem, especie de programa de residencia destinado a artistas de fuera de Rio Grande del Sur, tuvo parte de sus resultados visuales exhibidos en el Cais y parte mostrados en museos de ciudades del interior del Esta- do, locales en los que no es habitual ver producciones contemporáneas. Era considerado por el staff curatorial una mezcla de estrategia expositiva y activadora.
A principios del año, Roca colgó en el blog de la muestra un manifiesto sobre principios curatoriales, con veinte items. Interesante pieza de lectura (disponible online en este link), levantó discusiones a través de tópicos como
“Una exposición no es una biblioteca”, “Una exposición no es un cineclub”, “Una bienal no es una Exposición Universal” y “Una bienal no es una feria de tecnología”, cuestionamientos simples, pero que son dejados de lado por personas y abordajes por todo el mundo en un circuito abarrotado de grandes exposiciones realizadas cada dos años.
Después de tales proposiciones provocativas, queda la cuestión: ¿Roca y equipo tuvieron éxito en ese empren- dimiento? La respuesta es sí, a pesar de los errores, nor- males para cualquier evento de esa categoría y menos graves. El triunfo de la 8a edición fue amarrar muy bien ejes expositivos que podrían perderse en un evento grandioso, en el mal sentido. Así, el cuerpo central de la muestra, en los muelles del puerto, tenía un diseño expositivo discreto y no se excedió en número de obras y abordajes. Allí cerca, un visitante podría ver en dos días, con calma, caminando en la zona central de Porto Alegre exposiciones muy bien armadas (Além Fronteiras, organizada por la veterana Aracy Amaral, Eugenio Dittborn y sus Pinturas Aeropostais, con comisariado del propio Roca) e intervenciones que posibilitaban nuevas miradas sobre paisajes “gastadas” en la visión de los habitantes de la capital del Estado, dentro de la sección Cidade Não Vista. El segmento Cadernos de Viagem permitió a los visitantes del cuerpo principal de la exposición acompañar resultados interesantes a partir de incursiones de los artistas por lugares menos conocidos, sin contar con la importancia de que públicos no acostumbrados al arte contemporáneo hayan contado con producciones variadas y hechas en su entorno.
OBRAS
Es gratificante cuando una Bienal de ámbito interna- cional revela alguien con obra emocionante, descu- bierta al momento de verla en medio de nombres de trayectoria mucho más extensa. Fue el caso de Mayana Redin (Campinas, 1984), artista que se divide entre Porto Alegre y Rio, en la serie Geografia de Encontros (2010/2011), expuesta en la sección Geopoéticas. Los diseños consistían en la superposición de cartografías existentes en los mapas del mundo, que se encontra- ban en la superficie de un papel vegetal simple, con contornos marcados por el grafito. Las líneas del mar Muerto se encuentran con la del monte Everest; los mares Negro, Rojo y Amarillo se confundían, el Amazonas convivía con el Sahara; decenas de países sin mar se agrupaban en un conjunto único. Trabajo silencioso que crece cuando pensamos en piezas más ruidosas siempre presentes en recortes bienales, despierta la atención sobre una joven artista con poco tránsito en el circuito del arte brasileiro.
.jpg)
Marina Camargo (Maceió, 1980), que se divide entre Porto Alegre y Munich, fue otro de los aciertos del comisariado de Aracy Amaral en Além Fronteiras. Con una casi individual en el Margs dentro de la muestra, el proyecto titulado Tratado de Límites (2011) fue exhibido con múltiples lenguajes (fotografía, acción, obra sonora, video, escultura). En viaje por la región de los pampas, con incursiones al Rio Grande del Sur y a Uruguay, Camargo fue creando una cartografía poética propia, alimentándose del substrato geográfico que recorría y, por fin, realizando trabajos de resultados envidiables. Las letras de concreto que simbolizan el centro geográfico de la región en Tacuarembó, pequeña ciudad del Uruguay, registradas en foto y semienterradas, parecen el letrero de un Hollywood casi patas arriba, pero que no deja de ostentar marcadamente la identidad de un lugar. Identidad en forma de notas musicales mezclada al fuerte viento local en Paisagem com Ondas (2011), obra sonora que mezcla lo natural y lo construido. Importante destacar que la argentina radicada en Holanda Irene Kopelman (Córdoba, 1974), al lado de Camargo en el espacio expositivo, también creó una serie de diseños sutil a partir de referencias visuales de los cañones de la Sierra Geral, en el interior del Estado. También merecen mención en Além Fronteiras los tra- bajos de Felipe Cohen y Lucia Koch, artistas con mayor trayectoria en el arte brasileiro.
.jpg)
En el apartado Geopoéticas, André Komatsu (São Paulo, 1979) presentó la serie O Estado das Coisas (2011), en la cual cruza referencias fuertes de su ciudad natal y nociones de desterritorialización y circulación maximizada. En una de las obras, enredados a mástiles de banderas, una serie de tenis quebraban el protocolo y subvertían la rigidez de procedimientos diplomáticos y símbolos nacionales. En otra pieza, una mesa circular con ventiladores en su tapa giraba aleatoriamente y creaba garabatos/límites en el suelo del andén. Es una instalación con un macaco utilizado en automóviles que rompe la regularidad de un dry wall expositivo.
La fuerza de la serie de Komatsu hace que todavía lamentemos obras menos interesantes de nombres más conocidos en el panorama brasileiro, como Paulo Climachauska y Marcelo Cidade (este colocado junto a Komatsu, lo que fatalmente generaba una comparación, hasta por la temática y origen próximas), en esta sección de la Bienal.
Vídeos hechos por Cristina Lucas, Melanie Smith y Miguel Angel Rios, todos artistas que tienen ya bastante visibilidad, puntuaban espacios expositivos con fuerza; cada cual a su manera. Sin embargo, en Geopoéticas, Donna Conlon (Atlanta, 1966) y Jonathan Harker (Quito, 1975) habían exhibido en Drinking Song (2011) una articulación audiovisual rara, con humor e ironía, al emular una publicidad de cerveza relacionada con la conflictiva historia de Panamá. Un efecto parecido a la superposición de himnos de países del Mercosur, tocado por sirenas en un tranquilo jardín de estilo francés dentro de un palacete de gobierno, firmado por Santiago Sierra. Himnos de Argentina, Brasil, Chile, Paraguay y Uruguay, Reproducidos al mismo tiempo y continuamente (2007) tal vez sintetice en buena parte, las aspiraciones del proyecto curatorial de la 8a Bienal del Mercosur, algo invisible, pero no silencioso, reverberando fricciones en los lugares más insospechados, justamente aquello que el arte contemporáneo debe fomentar. / Mario Gioia
TEXTO ORIGINALMENTE PUBLICADO EN LA REVISTA ESPAÑOLA DARDO