O olhar para o alto, para o céu, o olhar para baixo, para o desenho das cidades.
Ao abordar a desorientação, busco referências nos mapas das cidades e das estrelas. Entre o que vejo e imagino, entre o que é visível e o que não é a olho nu, interesso-me pela visão em si, pelo olho que faz a visão possível. Essas questões estão presentes nos trabalhos que compõem a exposição Mundo – mundo como representação das coisas do mundo, mundo percebido através de um olho que marca um ponto no espaço.
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PERCURSOS EM MARTE, 2005 (fotografia e desenho)
Percursos em Marte é uma fotografia da superfície de Marte onde projetei linhas que simulam percursos realizados naquele espaço. Não são percursos aleatórios: esses caminhos foram percorridos em três diferentes cidades (Granada, Córdoba e Sevilha, na Espanha), e então representados e sobrepostos uns aos outros. Quando encontrei pela primeira vez uma fotografia da superfície de Marte, eu estava vivendo uma experiência nova, numa cidade até então desconhecida, Barcelona, onde ficaria por um período determinado: 365 dias. As medidas do tempo eram precisas, mas a experiência não. Talvez a sensação de desorientação por estar neste outro lugar me fez buscar (não olhando diretamente o céu, mas buscando imagens na Internet) uma solução bastante antiga entre os homens: olhar para o céu em busca de orientação. A escolha de o que fazer com essas imagens que eu encontrava surgiu do cruzamento de interesses aparentemente distintos. Nesse mesmo período eu buscava desenhos ou imagens familiares que marcassem a passagem do tempo, buscava esse mesmo sentido de orientação através das cidades.
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CIDADES APAGADAS, 2005 (vinil adesivo, caixa de luz)
A experiência de cruzar percursos realizados está presente também em Cidades apagadas. Neste, os mapas de três cidades (as mesmas de Percursos em Marte) são sobrepostos até sua fusão deixá-los ilegíveis cartograficamente. A intenção é manter um equilíbrio entre o apagamento quase total dos mapas e, ao mesmo tempo, deixar vestígios de que aquele desenho é formado por mapas. A iluminação de Cidades apagadas realça esses vestígios, formando pontos luminosos, algo que pode remeter a estrelas num céu escuro.
Desse processo de olhar do alto para baixo e do chão para o céu, surgiram também Fundo do Mundo e Depois do céu. Neste, uma fotografia redonda de um céu azul com nuvens está posta no teto da sala; abaixo há um espelho também circular que reflete a imagem que está no alto. O movimento de olhar para cima e para baixo se apresenta como condição para se observar Depois do Céu. Em Fundo do Mundo me aproximo da idéia de marcação do tempo através de um mapa do céu. Numa bolha de acrílico preto são feitos furos a partir do desenho das constelações do mês de outubro de 2005 (vistas do hemisfério sul), furos que deixam passar a luz que está no interior da peça. A possibilidade de inverter a curvatura do céu é fundamental nesse trabalho. Fazer das estrelas pontos contidos nessa superfície côncava faz parecer que o universo tem um limite, como se pudéssemos percorrer o mundo até seus limites e encontrar “o fundo do mundo”, uma atmosfera sólida que contém as estrelas ali concentradas.
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FUNDO DO MUNDO, 2005 (bolha em acrílico e luzes)
Nos desenhos de Robert Fludd (séc. XVII) sobre a gênese do mundo, aparece a forma de um círculo onde se sucedem os processos químicos de formação da Terra, e cuja representação remete à de um olho. Na Idade Média, acreditava-se que o olho estaria coberto por sete tecidos ou membranas que corresponderiam às sete esferas planetárias do macrocosmo. As relações visuais das representações do cosmo, da gênese do planeta e do olho me interessam, e o trabalho Visível lida com essas relações. A representação da anatomia de um olho (tirada de um manual de anatomia) é desenhada diretamente na parede com uma tinta só visível com luz negra. Visível é invisível sem a presença da luz negra. Fundo do mundo e Visível têm as mesmas dimensões, o mesmo formato circular. As relações entre olho e cosmo não são explícitas, mas constam como uma documentação da produção desses trabalhos.
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VISÍVEL, 2006 (luz negra, tinta UV sobre parede)
Entrevista sobre a exposição: www.youtube.com/watch
Exposição no Centro Cultural Brasil-Espanha
Porto Alegre, 04 de maio a 04 de junho de 2006