JOVENS CONCORDARAM QUE A WEB TEM SIDO UMA FERRAMENTA NA DIFUSÃO DE TRABALHOS E PROJETOS
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Participaram do debate BonGiovanni, 25 anos, James Zortéa, 30, Leonardo Fanzelau, 26, Lilian Maus, 25, Marina Camargo, 29, e Talita Hoffmann, 20
Foto:Daniel Marenco
Matéria publicada dia 03 de agosto de 2009, no “Segundo Caderno” do Jornal Zero Hora. Abaixo a entrevista de Eduardo Veras realizada com os artistas na íntegra.
Não é uma linguagem o que vai definir a geração de artistas visuais nascidos nos anos 1980. Herdeiros de uma independência criativa conquistada há pelo menos meio século (aquilo que o crítico Mario Pedrosa nomeou ainda nos anos 60 de "exercício experimental de liberdade"), eles não precisam limitar-se a temas, suportes ou espaços predefinidos.
Talvez essa turma possa ser melhor reconhecida a partir de novas formas de inserção e atuação no chamado sistema de artes — por meio de iniciativas coletivas ou valendo-se de meios como a internet.
Reunidos por ZH, seis jovens artistas visuais que vivem e trabalham em Porto Alegre discutiram essas questões (confira a íntegra em zerohora.com/estilodevida). Todos concordaram que a web tem sido uma estupenda ferramenta na difusão de trabalhos e projetos. Todos eles mantêm blogs ou flickrs. Alguns chegam a perceber relações diretas entre esse ambiente e a própria concepção de suas obras.
Participam BonGiovanni, 25 anos, James Zortéa, 30, Leonardo Fanzelau, 26, Lilian Maus, 25, Marina Camargo, 29, e Talita Hoffmann, 20. Todos eles vivem e trabalham em Porto Alegre.
Zero Hora — Vocês chegam a se reconhecer como uma geração em algum momento? Há algo em comum entre vocês que os diferencie, por exemplo, dos artistas que foram seus professores?
Lilian Maus — O Instituto de Artes parece conectar bastante a gente, mesmo que de modo indireto. Eu tive, ao longo do meu estudo no IA (que continua agora no mestrado), vários cruzamentos de professores e estudos com o James e a Marina, apesar de sermos de turmas/anos diferentes no IA e eu ser um pouco mais nova que eles. Conheci melhor a Marina quando estava fazendo um intercâmbio em Barcelona. Ela, por coincidência, estava lá também na mesma época.
Já com o Leonardo, acabei participando de uma exposição em comum, na Associação Chico Lisboa, sob a curadoria da Zorávia Bettiol. O Giovanni, eu conheço do Atelier Subterrânea (espaço mantido por artistas) e também porque ele é colega e amigo do Túlio Pinto e do Guilherme Dable, integrantes do espaço. Já a Talita, eu a conhecia de vista, pois eu e o James somos mais próximos do Bruno Novelli, namorado dela. Na verdade, temos muitos amigos em comum, freqüentamos espaços semelhantes. Não sei se daria pra falar de uma única geração. Eu, com 25 anos, me sinto literalmente encima do muro! Talvez entre duas gerações, não sei. Parece-me que há algumas diferenças de professores, influências e até modo de circulação dos nossos trabalhos. Vocês não acham? Por exemplo, a Talita circula bem mais do que eu na área da ilustração, design. Eu tenho meu trabalho artístico em desenho, mas também tenho raízes na reflexão teórica, não por acaso meu mestrado é em História, Teoria e Crítica. Gosto de escrever projetos, atuar também como produtora cultural. O James circula mais em festivais de vídeo e tecnologia e design de web. A Marina transita mais por galerias comerciais, também já produziu projetos como o Percursos, aqui em Porto Alegre. Enquanto o Bongiovanni trabalha com projetos de instalação efêmera, o Leonardo trabalha mais com a escultura como um produto mais perene, produção de objetos. Eu, o James e a Marina tivemos aulas com o Pasquetti, que em seguida se aposentou do IA. Ele contribuiu certamente para o desenvolvimento do nosso trabalho em desenho, assim como o contato com o artista e professor Flávio Gonçalves também. A artista e professora Teresa Poester foi sempre uma incentivadora das pesquisas em desenho no IA e do próprio Atelier Subterrânea.
Leonardo Fanzelau — Penso em geração mais no sentido cronológico, como um grupo de artistas produzindo em determinado momento, sendo a sucessão lógica da cadeia artística. Se há aproximações entre os trabalhos, não creio que engendram uma identidade para a geração. Semelhanças entre processos criativos acontecem, independente se são contemporâneos ou não. Concordo com a Lilian sobre o IA. Parece-me um porto, mas não indispensável, onde em algum momento atracamos. Uma diferença em relação aos artistas professores, pelo menos para mim, é a vida docente que eles têm, e eu não.
James Zortéa — Fico pensando que geração seria essa? Quais seriam os pontos que ligam esse grupo?
Imediatamente penso no IA, pois todos foram ou são alunos acadêmicos de artes, com exceção da Talita, que também passou pela acadêmia, mas pelo viés da ESPM. Jovens artistas acadêmicos, mas nenhum atrelado exclusivamente aos alicerces da sagrada instituição.
Percebo que cada um de nós transita sobre redes diversas, sejam elas projetos independentes, tais como a Subterrânea e o Percursos, ou ainda, os circuitos e oportunidades da "carreira de artista".
Talvez, em tempos de redes sociais online, onde todos estão acessíveis por um endereço eletrônico, outro ponto que pode ligar esse grupo de jovens artistas é a fluência na web. Estou aqui, em frente ao laptop, tentando mapear essa geração e, para tanto, observo as referências postadas de cada artista no seu espaço eletrônico. Cada página digital revela uma proposta de apresentação dos trabalhos, que explicita um entendimento da arte frente aos circuitos. Hoje pela manhã, postei no correio um desenho (em um caderno de notas) para uma artista em Israel, saboreando a velha movimentação do mail-art, que agora é assistida pela internet. Do mesmo modo, inscrevo filmes em mostras de vídeo-arte (nacionais e internacionais), busco editais que me interessam e atualizo as informações digitais da Subterrânea, troco informações com uma rede cada vez mais densa e exigente de tempo.
Talita Hoffmann — Quanto à pergunta, concordo com o Leonardo, no sentido de se tratar de uma geração mais no sentido cronológico e que produz no mesmo espaço (Porto Alegre), pois também penso que os trabalhos/influências/etc sejam bem diferentes. Quanto ao Instituto de Artes, realmente sou a única que não cruzou com o resto do pessoal e não tive essa mesma experiencia, embora alguns dos meus professores fossem vinculados ao IA. Fiz aulas no Atelier Livre com a Gisele Menezes, que foi uma ótima professora e incentivadora, assim como outras aulas de desenho na Faculdade de Design, com a Amelia Brandelli e a Claudia Barbisan — que também me ajudaram muito. Sobre as diferenças entre a minha geração e a delas, não consigo ver muitas hoje em dia, mas talvez o fato da minha carreira ter iniciado em meio a uma quantidade maior de acesso à informação pela internet e mesmo uma maior facilidade de divulgação do trabalho (sites, blogs, etc).
Marina Camargo — Não reconheço necessariamente como uma geração de artistas, mas como produções paralelas que podem (ou não) estar conectadas por afinidades, identificações. Percebo isso em um sentido mais geral, de que as produções em arte contemporânea hoje acontecem em processos isolados que podem ter conexões com artistas de qualquer lugar do mundo e de qualquer época. Para mim, o mais importante são as alianças que se criam entre os artistas para produzir projetos coletivos ou ações em parceria. Isso sim marca e identifica uma geração, e não questões de estilo. Tenho um projeto coletivo com a artista Romy Pocztaruk e com a participação de outros artistas, o Percursos (http://percursos.com.br). Esse projeto nos move por caminhos que sozinhas não seguiríamos, para ações e mesmo estratégias que não aconteceriam individualmente, mas que se potencializam em grupo. O mesmo acontece com os artistas do ateliê/galeria Subterrânea. Embora as produções sejam isoladas, as ações em coletivos, em grupos de artistas, definem e marcam uma geração.
Difícil a segunda pergunta... Acho que o que nos diferencia dos artistas que foram ou são nossos professores é uma questão de difusão do trabalho, das mídias que temos hoje em dia, que nos possibilitam atingir outros meios, lugares e pessoas, para além das limitações geográficas. Porque, em termos de processos de trabalho, de criação, essa diferenciação não existe.
O que mudou foi a maneira de buscar espaço para o trabalho, de buscar conexões e espaços para mostrar o trabalho que só existem por causa da internet (sites de relacionamento, sites para artistas, blogs, etc). Na essência, acredito que as coisas ainda são mais ou menos as mesmas: é como pensar que sempre se emprestou discos, que sempre existiu essa troca entre as pessoas mas, com a internet, esse "hábito" ganhou outras dimensões, a troca se dá entre pessoas de todo o mundo. E mais interessante fica quando pensamos em como a produção de um artista feita em algum canto do mundo (não necessariamente grandes centros) pode atingir grandes proporções de divulgação e público. Especialmente na música isso é muito pertinente. Também no caso das artes visuais ocorre o mesmo, ainda que em outras proporções. Isso porque a própria natureza do trabalho de artes visuais muitas vezes pede a presença do espectador diante da obra, o que restringe de certa maneira uma difusão plena dos trabalhos de arte na internet.
BonGiovanni — Estabelecer algumas relações entre os trabalhos é possível, mas não consigo visualizar uma unidade que exemplifique a nossa geração. O reconhecimento de uma geração requer um certo distanciamento. Daqui a alguns anos, se for necessário, conseguiremos estreitar semelhanças pertinentes à maioria dos trabalhos. Por outro lado, o que eu vejo como característica comum a todos nós é uma postura de articulação do artista, não apenas na exploração de diversas linguagens dentro da sua produção, mas sobretudo na maneira como essa produção se projetará no sistema das artes. Diante de múltiplos processos e produtos de trabalho do nosso tempo seria impossível que o antigo e desgastado mercado das artes absorvesse tudo. Para tanto, se exige essa desenvoltura do artista, somos nós próprios que muitas vezes corremos atrás de espaço para nosso trabalho, que viabilizamos mecanismos de circulação das nossas produções.
Quanto a diferenças entre nós e a geração anterior (estranha expressão), não apontaria grandes mudanças. Os artistas e professores com que convivemos de certa maneira vêm acompanhando essas transformações e, como nós, também buscam essa articulação dentro de suas carreiras. É claro que a geração anterior vem sofrendo uma adaptação aos novos mecanismos das artes visuais, enquanto nós já nascemos adaptados.
Em relação as instituições formadoras, eu vejo que do IA saem artistas com bons trabalhos, de diferentes linguagens mas com um certo pensamento comum que em parte aproxima a todos. Embora tenha diferentes professores, no IA predomina um pensamento formador (francês) que de certa maneira uniformiza os artistas que lá são formados; sem muita abertura a outros métodos, deixando os alunos com uma produção meio engessada. Na minha opinião essa postura da instituição deveria ser revista. Isso em nada contribui para uma evolução na cena artística de Porto Alegre, que ainda busca legitimação no campo nacional e necessita de maiores possibilidades para enriquecer sua produção atual. Eu me incomodo com tradições em universidades, sobretudo no campo artístico. Influências são inevitáveis, mas transformá-las em paradigmas é muito desnecessário.
ZH — Há dois pontos importantes nas falas de vocês que talvez a gente pudesse explorar mais: o fato de a web possibilitar uma circulação maior de informações, trocas e até mesmo uma maior visualização dos trabalhos; e, por outro lado, os projetos em parceria (artistas com trabalhos individuais que se dedicam eventualmente a ações coletivas). Acredito que não há dúvida quanto a isso. O que poderíamos discutir aqui é se, em alguma medida, essa situação se reflete no trabalho em si? Será que acontece?
Lilian — No meu trabalho artístico venho tendo uma ótima experiência, impulsionada pela web (www.flickr.com), com a troca de moleskines com artistas de diversas regiões do mundo. Uma dessas trocas de moleskine (http://moleskinex18.blogspot.com/), articulada pelo artista norte-americano Marty Harris, está neste momento em exposição em Rochester, NY (EUA), no espaço High Falls Art Gallery. Isso foi uma surpresa boa. Pretendemos, eu e o James, que agora também faz parte deste grupo, organizar uma mostra também aqui em Porto Alegre. Ao circular mundo a fora, esses caderninhos rompem fronteiras culturais e comprovam que a Internet também pode impulsionar meios de comunicação como correio postal, lembrando aquelas experiências da década de 70/80 da arte postal, de quando eu nem era nascida.
Além disso, já fiz vídeos em parceria com o James. Estamos trabalhando juntos em projetos novos em animação stop motion. A web tem um papel fundamental na divulgação do trabalho de vídeo. O pessoal envolvido com audiovisual se articula muito em rede, não há tanta comercialização do produto, mas há muitos festivais e prêmios, isso sem falar na popularidade do YouTube, por exemplo.
Ao organizar minhas imagens em portfólios virtuais e repensar o trabalho em função do documento digital e da própria tela luminosa do computador, certamente coisas novas surgem e relações são construídas entre mídias que pareciam tão distintas, tais como vídeo, fotografia e desenho. Eu estou me permitindo misturar mais a minha produção, experimentar como se ela fosse um quebra-cabeça. Além disso, há uma incrível vantagem que é a econômica. Dá para produzir e visualizar imediatamente essas imagens, com custos cada vez mais baixos. Mas o que fazer com tudo isso? Talvez seja essa uma pergunta fundamental para o artista hoje.
Já a web, em relação ao trabalho em conjunto do Atelier Subterrânea, é fundamental para divulgar o que fazemos. Esta semana mesmo fiquei comovida ao visualizar um site de um espaço novo de Recife que se chama Sala Recife (www.salarecife.com.br). Na apresentação do site eles citam a gente, do Atelier Subterrânea, aqui de Porto Alegre, juntamente com o Torreão, como espaços "inspiradores" da proposta deles. Não é legal isso? O espaço deles também é gerido inteiramente por artistas. Não sei se eles chegaram a nos visitar pessoalmente, mas acho que o boca a boca e a Internet nos auxiliam muito a propagar nossa energia.
BonGiovanni — As múltiplas possibilidades de circulação dos trabalhos influenciam e muito na produção. Eu tenho vários trabalhos que foram pensados e adequados ao meio no qual serão visualizados e considero isso uma evolução na produção contemporânea, voltada para a ideia/conceito do trabalho e não atrelada a materialidade ou a espaços expositivos. Vejo o meu processo de trabalho, como o de vários outros artistas, sendo esse trânsito por diversas linguagens e meios de exibição. Não existe com isso uma perda de consistência na trajetória do artista, pelo contrário, há um enriquecimento com esses diferentes mecanismos de visibilidade, deixando o trabalho mais interessante e menos repetitivo.
As parcerias de trabalho eu considero que são ligadas a essa postura articuladora do artista, que se junta a amigos ou forma coletivos com o objetivo de se posicionar, de certa maneira, aparecer diante do sistema das artes. Poucos são os trabalhos que são desenvolvidos pelo grupo como um todo, na maioria, são ações coletivas que unem diferentes artistas com diversificadas produções com o intuito de estabelecer um diálogo, de viabilizar uma circulação desses trabalhos.
Talita — Como influência na minha produção, acredito que a internet me possibilita a busca por novas referências de imagens, que depois vêm a surgir no desenho. Mas acho que a influência nesse sentido fica por aí, pois também utilizo como portifólio e mostro trabalhos já prontos, e não produzo nada especificamente para ser mostrado na web. Sendo assim, o que fica influenciado é justamente a forma que esses trabalhos serão apresentados (resolução das imagens, tratamento de cor digital, especificações em inglês/português, etc.).
Leonardo — O uso ativo (de construir a/na rede) que faço da web é através do blog, que para mim é um portfolio online, com espaço também para eventuais divulgações do meu trabalho e de documentos do meu processo artístico, mas sem espaço para troca de pensamento com outras pessoas ou comentários. Portanto não reflete no trabalho em si, pois é uma situação pós-trabalho. O que posto no blog é o produto.
Minhas aparições em contextos coletivos, na maioria das vezes, foram praticamente impessoais, por exemplo em salões, em que eu apenas envio minha obra e depois a vejo no espaço expositivo ao lado de outras. Também não refletem no trabalho, são posteriores a ele. Foram poucos casos de trocas de experiências coletivas, de atuação no durante e não apenas no resultado final. Como exemplo lembro da exposição Travessa Venezianos: Construções do Tempo, no Espaço Cultural Chico Lisboa, onde artistas e curador se encontraram regularmente para pensar/discutir a exposição.
Até hoje não fiz algo coletivo por iniciativa própria. Quando acontece é por ocasião.
Marina — Acho que acontece sim uma contaminação entre os meios; a web não apenas serve como de divulgação, mas muitas vezes é de onde vem o trabalho ou onde ele se concretiza. Por exemplo: alguns trabalhos podem surgir de imagens que encontro na web, ou recorro a alguns sites para buscar informações para elaborar os trabalhos. Além de projetos feitos especificamente para a internet. Por exemplo: a tipografia que constrói um mapa aleatório da cidade de Nova York é um trabalho que só se concretiza se as pessoas tiverem como usar essa fonte (que está disponível no meu site para fazer download). Também tenho trabalhos coletivos com Andrei Thomaz. Eclipses, por exemplo, é um trabalho que só acontece na web: é um software que usa imagens do Google Maps para gerar imagens que são a convergência de ruas com o mesmo nome em todo o país; essas ruas são alinhadas e ao final se forma uma imagem com a sobreposição dos mapas de todas as cidades que tinham a ocorrência de rua com o mesmo nome.
James — Sim, posso apontar reflexos das redes digitais em algumas experiências minhas — já desenvolvi um instigante trabalho de animação em colaboração com um programador, o que possibilitou um debate que se centrava sobre a aleatoriedade (acaso) no computador e as possibilidades da inserção de quebra nos padrões numéricos. Esse trabalho rendeu uma menção honrosa no Prêmio Conexões Tecnológicas do Instituto Sérgio Motta (parte do resultado pode ser conferida em http://vimeo.com/1574074). Tenho realizado outras explorações na web (animações interativas, interfaces que registram rastros dos internautas, etc) que surgem da disponibilidade e envolvimento das pessoas. É da dedicação das pessoas em compartilhar ideias que surgem iniciativas bacanas, tais como as trocas de cadernos de desenho, que faço junto com a Lilian, ou as mostras internacionais de vídeo, tudo articulado por grupos na Internet. Num outro sentido, quando pesquiso em sites de referência (desenho, vídeo, animação, fotografia, tipografia, design de informação) me deparo com uma infinidade de situações propostas por outros artistas. O que configura a internet como um local movediço, que escorre nas mais diversas direções. Para não diluir nesse cenário, acredito que é necessário construir um trabalho coerente com questões próximas, que partam do próprio desenvolvimento do fazer artístico.
ZH — Uma terceira pergunta que é desdobramento das anteriores: talvez não importe muito o nome que a gente dê, mas uma "cena" (ou um sistema, um mercado, etc) vai criar sempre algum tipo de demanda, a qual terá repercussão na trajetória individual de cada artista. Neste sentido, como vocês avaliam a cena porto-alegrense?
Lilian — O circuito independente é importante na cena artística e vem se ampliando nas artes visuais de Porto Alegre, até então bastante carente dessa renovação. A intersecção com outras áreas como música, dança e cinema parece crescer também. Acho que nossa geração (no sentido cronológico), não tem mais uma visão tão fechada do que seja a carreira artística. Dizem que na década de 80 as coisas eram diferentes, com o crescimento econômico brasileiro, vendia-se a possibilidade para o artista de viver da venda de trabalhos em galerias, havia até "olheiros de artista" (e eu achando que esse termo era exclusivo de futebol!). Hoje os tempos são outros. Sabemos que as galerias comerciais são poucas e que cabe ao artista também ampliar esse circuito, não dá pra viver de especulação. Buscamos versatilidade, circulando em vários nichos, criando alternativas de baixo custo para venda de trabalhos. Não dá pra se fixar também em uma única mídia. Mesmo quem trabalha com um material específico, precisa documentar esse trabalho, publicar na web, etc.
Assim, o artista ganha novos nichos de atuação e pode pensar em algo além de ministrar aulas na academia. Não por acaso a maioria de nós passou pelo IA, pois onde mais encontraríamos possibilidade de formação artística em Porto Alegre? Há o Atelier Livre da Prefeitura, o Torreão, a Arena e os ateliês independentes, como a Subterrânea, que possibilitam o ensino das artes, mas acho que minha família, assim como a da maioria dos jovens de classe média, não aceitaria que eu não fizesse uma graduação, não tivesse um diploma. Eu mesma não pensaria nisso nos dias atuais. Nem mesmo os técnicos de nosso país costumam ser valorizados, o que parece ser um grande equívoco. Não é tão diferente assim nas artes. Por isso a base de formação dos artistas no Rio Grande do Sul parece ser as universidades federais (as únicas que oferecem o bacharelado em artes visuais). Atualmente é crescente a procura pela Pós-Graduação. Eu mesma estou no mestrado, o James também e a Marina já é mestre. A arte contemporânea está bastante vinculada à academia, ao desenvolvimento de uma pesquisa, mesmo que arte não seja apenas conhecimento.
BonGiovanni — Ainda é muito cedo, mas eu vejo uma boa repercussão para essas atitudes que a nossa geração vem tomando, ações como a criação de espaços expositivos alternativos, eventos articuladores tanto comercialmente como de caráter educativo, entre outros que estão em formação. Já é um grande passo nos darmos conta que o mercado/sistema não é suficiente para um crescimento da cena artística de Porto Alegre, e que para mudar essa situação nós mesmos temos que buscar novos meios, criá-los, nos posicionando dentro desse sistema. Para tanto, precisamos construir maneiras de alcançar em primeiro lugar um público que é quase inexistente na cidade, depois pensar nas questões de crítica e formação de mercado. Acredito que em pouco tempo e muito trabalho nós conseguiremos criar um novo e mais satisfatório sistema das artes visuais, que poderá suprir mais as nossas necessidades atuais, além de projetar a nossa cidade, não apenas como a sede da Bienal do Mercosul, e sim como uma cena efervescente das artes visuais brasileiras.
Leonardo — A arte em Porto Alegre tem espaços diversificados: para trabalhos que utilizam uma linguagem artística tradicional sem viés contemporâneo; para trabalhos inéditos e voltados para a contemporaneidade; para artistas emergentes; para artistas de extenso currículo; para experimentações; para arte já com caráter histórico... Já a inserção nesses meios responde às etapas e especificidades de cada artista. Enquanto uns selecionam por edital, outros o fazem por convite. Assim como também há os de participação, a princípio, livre e espontânea. Casualmente acabei de ler na revista DasArtes duas matérias sobre "Outros lugares da arte" (título da seção sobre este assunto). Uma sobre a Galeria Cilindro, de Campina Grande, PB, e outra sobre a Galeria do Poste, de Niterói, RJ. Ambas estão localizadas na rua e obedecem literalmente às suas denominações. A Cilindro é numa praça pública e a do Poste num poste de iluminação pública. Iniciativas desse tipo, mais voltadas para a rua e o espaço urbano, são poucas em Porto Alegre. O Salão Bienal do Mar, em Vitória, por exemplo, é voltado apenas para projetos de intervenção urbana.
Marina — Bom, antes de mais nada, gostaria de esclarecer que entendo por mercado a comercialização de fato da obra de arte (o que acarreta maior número de galerias, implica maior número de colecionadores, por exemplo). Falo de sistema de arte num sentido bem amplo mesmo, onde o mercado também se inclui: instituições culturais e de ensino das artes, artistas, museus, galerias, críticos de arte e curadores, etc. O sistema como um panorama mais complexo das diferentes instituições, campos e áreas de atuação nas artes.
Acho que em Porto Alegre, nós, artistas, ficamos até de certo modo alheios às demandas do mercado. Até porque neste sentido (mercadológico mesmo) Porto Alegre é bastante isolada e deixa a desejar. Claro que temos boas galerias, temos colecionadores, etc, mas não o bastante para criar um sistema intenso de comercialização, a ponto de movimentar uma cena cultural.
Acredito que se existe alguma demanda que atinja a trajetória dos artistas seria mais aquela que vem do meio acadêmico mesmo, que acaba sendo um polo de formação de artistas aqui em Porto Alegre. Embora com toda a qualidade de ensino que se tem, acredito que fazem falta outros centros de produção (de arte e de pensamento sobre arte) na cidade. Poderíamos, por exemplo, ter residências artísticas na própria cidade, fazendo circular mais artistas de outros lugares do mundo e também dando oportunidade a jovens artistas.
Por um lado, acho que essa situação de algum isolamento de um sistema de artes mais ativo, por assim dizer, pode favorecer a produção dos artistas. Nos dedicamos mais à nossa formação, temos mais tempo de elaborar o trabalho antes de "ingressarmos" num sistema de mercado/comercialização de arte. Até certo ponto, o isolamento é muito favorável para o crescimento do artista.
Mas também esse mesmo isolamento pode ser prejudicial ao trabalho artístico. Faz parte da formação de um artista visitar muitas exposições, conhecer pessoalmente as obras de arte que em geral vemos só em livros ou na internet. É preciso um grande esforço para viver em Porto Alegre e ao mesmo tempo estar conectado a locais onde exista um sistema de arte mais "ativo".
E isto no sentido de uma cadeia mesmo: se há mais museus e instituições culturais, há mais espaço para os artistas mostrarem seus trabalhos; se há demanda de mercado (compradores e colecionadores de arte), há mais galerias comerciais; se há mais artistas, mais exposições, há mais críticos de arte, mais curadores, e assim por diante. Ou seja, não adianta só ter museus ou só ter galerias comerciais, ou só ter escolas de arte em uma cidade. É preciso um conjunto de elementos para que existe um sistema das artes "ativo", por assim dizer (espaços culturais, de eventos, de demandas, etc). É claro que temos eventos e instituições de arte muito importantes, como a Bienal do Mercosul e a Fundação Iberê Camargo, por exemplo.
Mas seja em Porto Alegre ou onde for, o mais importante é manter a inquietação. A gente precisa valorizar o que é feito ao nosso lado e ao mesmo querer mais — e trabalhar para isto acontecer. Hoje em dia o que vejo é Porto Alegre como uma "exportadora de talentos" para o resto do país. Se isso está acontecendo é porque estão faltando oportunidades para que os artistas permaneçam vivendo e produzindo aqui. Acho que somos responsáveis por essa movimentação cultural sim, mas também falta muito incentivo por parte dos poderes públicos, assim como de outras instituições culturais. Falta manter ativos centros culturais que já temos e que por questões diversas acabam sem uma administração efetiva. Os artistas muitas vezes terminam sendo "patrocinadores" de arte em espaços públicos, o que não deveria acontecer. O trabalho do artista já é por si só muito importante para nossa cultura e identidade.
Talita — Tenho visto Porto Alegre como um espaço realmente fechado e isolado. Pelo menos para o meu trabalho. Vejo uma maior aceitação e um mercado muito mais amplo fora do estado e até mesmo do país. Não vejo muito a valorização da comercialização de obras de arte de jovens artistas, o que acaba de certa forma desincentivando o artista dentro de Porto Alegre e o leva à "exportação" do seu trabalho para outros lugares onde essa valorização existe.
Não tenho grande conhecimento do meio acadêmico, mas vendo de fora também percebo em alguns alunos que saem do IA esse certo "engessamento" na produção que o Giovanni comentou. Não sei se isso acontece exclusivamente ao IA ou em universidades de arte de um modo geral, e também obviamente isso não se aplica a todo mundo, mas realmente é algo que venho percebendo, inclusive através de conversas com amigos que passaram pelo IA.
Também concordo com o que a Marina disse sobre Porto Alegre ser uma "exportadora de talentos", pois também vejo ótimos artistas que acabam não tendo espaço dentro da cidade e o sentimento geral que eu percebo conversando com outros artistas daqui é o de que Porto Alegre é uma cidade ótima, mas que infelizmente não rende tantas oportunidades de trabalho. Certamente os espaços que existem aqui são bons, mas ainda são muito poucos.
Linkando agora com a próxima questão, concordo completamente com o que o Giovanni disse, e acredito que as vezes o fato de Porto Alegre ser a sede da Bienal do Mercosul passa uma certa impressão de que a cidade é um enorme polo cultural, onde tudo acontece e os projetos de arte são altamente valorizados, quando na verdade nós sabemos que ainda faltam espaços e incentivo da produção local.
James — Há uma emergência de iniciativas, tanto de grandes instituições como de espaços organizados por artistas, que ampliam e complexificam o cenário cultural porto-alegrense. Novas oportunidades surgem da intersecção entre áreas da música, teatro, dança, audiovisual, informática e design, o que amplia o campo das artes visuais. Quanto ao mercado, este precisa ser impulsionado pelos próprios artista. Há iniciativas novas como a Desvenda, a Produtora Azul e muitas outras. Os artistas precisam fomentar seus próprios meios de circulação e isso já está começando a acontecer.
ZH — Quais foram ou quais são suas principais referências em arte?
Lilian — Dentre muitos que admiro, posso citar Dennis Oppenheim, Matthew Ritchie, Sophie Calle, Gabriel Orozco, Hélio Oiticica, Lygia Clark, Mira Schendel, Carlos Pasquetti, Carlos Asp e Maria Helena Bernardes.
James — Difícil essa! Não tenho nenhum "mentor" que sirva de baliza para minha pesquisa, mas sou admirador de diversos artistas: Gordon Matta Clark, Willian Kentridge, David Hockney, Gabriel Orozco, Cildo Meireles, Carlos Asp, Carlos Pasquetti, entre outros.
Leonardo — Falar em Duchamp como referência soa egoísmo. Duchamp é marco na arte mundial e parece mais uma catástrofe, no bom sentido. Catástrofe porque é um fato que gera consequências com as quais temos que inevitavelmente conviver. Gosto do pressuposto de Luciano Zanette para seus trabalhos, ele diz ser uma formulação absorvida de Duchamp: "Tirar as certezas, mas sem colocar outras no lugar das que desapareceram".
Não penso nas referências como bengalas. No meu entender, elas têm um papel agudo na minha produção; o meu convívio com elas não se estende de forma crônica. O teatro, por exemplo, frequento bastante, talvez mais que exposições de arte, e anualmente (geralmente no Porto Alegre Em Cena) vivencio esses momentos agudos, artisticamente estimulantes. Não sei o quanto influenciam o meu trabalho, o fato é que povoam meus pensamentos. Minhas referências são também fragmentadas e pontuais, em razão do meu olhar às vezes limitado; talvez por conveniência, só percebo aquilo que me interessa.
Me sinto cognitivamente angustiado frente aos trabalhos do Waltercio Caldas, mas algo me atrai, como a relação direta com a realidade cotidiana. Jorge Macchi é outro artista que trabalha com objetos ordinários e que me estimula a pensar. Com obras de Pedro Paiva e João Maria Gusmão tive contato apenas na 6ª Bienal do Mercosul e através da internet. Fiquei impressionado com os filmes que estavam na Bienal. Esse seria um caso da agudez de que falei anteriormente. Foi um contato apenas visual, em que não me aprofundei em pesquisas sobre suas carreiras e poéticas.
Mais exemplos que me são artisticamente relevantes: Samuel Beckett, Campos de Carvalho (mais especificamente o conto O Púcaro Búlgaro), Luis Buñuel.
Talita — Posso citar como principais referências o Hieronymus Bosch e o Henri Rousseau, assim como vários outros artistas naïf brasileiros e estrangeiros. De artistas locais, também posso citar o Fabio Zimbres, o Jaca e o Upgrade do Macaco.
Marina — As referências mudam de tempo em tempo. Admiro muito o trabalho dos artistas Sol Lewitt (em especial os desenhos), Giotto (pintor italiano do Renascimento), Andreas Gurski (fotógrafo alemão), Rivane Neuenschwander e Iran do Espírito Santo (artistas brasileiros), para citar alguns deles — embora não necessariamente esses artistas vão influenciar o meu trabalho.
Não só as referências em arte são presentes. Outras referências (mais distantes do meio das artes) como, por exemplo, livros de ciência sobre a formação do Universo me fascinam e também acabam muitas vezes formando os meus trabalhos, assim como desenhos manuais de instrução que vêm junto com produtos variados. Também várias cidades que conheci se tornaram referências importantes para mim. E ainda escritores como Michel de Certeau (autor de A Invenção do Cotidiano) e Paul Bowles (autor de O Céu que nos Protege). Enfim, a lista é grande! As referências das artes se misturam com a do mundo concreto, um pouco de tudo com o que convivemos acaba fazendo parte do nosso trabalho.
BonGiovanni — Tenho interesse em artistas como Waltercio Caldas, Janet Echelman, Jorge Macchi, Henrique Oliveira, João Modé, pelas suas atitudes grandiosas e pelo respeito e cuidado que cada um tem com o seu trabalho; também grandes artistas que enobrecem o campo das Artes Visuais com trabalhos ricos em consistência, como José Rufino, Clóvis Martins da Costa... Enfim, são muitos os nomes a serem citados e contemplados
ZH — Preencha na linha pontilhada: em minha produção artística, o que me interessa — — — — — — — — —.
Lilian — ... são anotações, tramas diárias, que se alastram e aderem a superfícies, formando películas de desenho.
James — ... são as transformações no tempo, os resíduos de movimentos e a emergência de padrões.
Leonardo — ... é criar objetos que pareçam cotidianamente normais.
Talita — ... é desenvolver e tornar visível um universo próprio.
Marina — ... é procurar elementos do cotidiano que se tornaram invisíveis ao nosso olhar rotineiro e torná-los novamente visíveis. O que me interessa é "fazer ver" o que não percebemos pela sua presença constante através dos trabalhos que faço.
BonGiovanni — ... são trabalhos que exploram lugares/espaços e que se relacionam diretamente com a atmosfera de cada local, trabalhos que se projetam, que de certa maneira se impõem diante do seu visualizador, que provocam essa troca de experiências.