Entre Ler e Ver
por Eduardo Veras (2009)
Uma longa tradição no campo da arte e da Estética trata de posicionar em territórios distintos a palavra e a imagem. Por vezes, a imagem é da mesma estatura que a palavra. Por vezes, é a palavra que tem o tamanho da imagem. Comparativamente, em um caso ou noutro, mesmo que em nome da igualdade, insinua-se a diferença. Os terrenos, mais do que distintos, parecem opostos. É como se ver e ler, de alguma forma, se excluíssem. Há uma parede – erguida pelo conhecimento, segundo certo poeta francês – que separa palavra e imagem. Àquele que observa, se solicita uma escolha: ou uma, ou outra.
Trabalhos como os de Marina Camargo (artista que nasceu em Maceió e vive em Porto Alegre), se não chegam a derrubar essa parede, cavam uma fresta que a atravessa. Se não reconciliam palavra e imagem, se não superam o antigo debate, se não resolvem a disputa, ao menos põem em xeque a necessidade da escolha. Trabalhos como os da Marina nos lembram que um texto sobre uma folha de papel é também uma imagem. A mancha faz desenho. Mais do que isso: a linha que define a página, a borda da folha de papel, também desenha. É como se fosse uma linha de horizonte que não separasse céu e terra, mas nos alertasse para esse espaço intermediário, entre céu e terra, palavra e imagem, ver e ler. A linha – entre – nos liberta da escolha.
[TEXTO PUBLICADO NA REVISTA NORTE - SEÇÃO ARTES VISUAIS]
Eduardo Veras, jornalista e pesquisador
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