Três peças de metal bidimensionais em forma de montes atravessam perpendicularmente pequenos montes artificiais posicionados no parque público da Marinha, em Porto Alegre: essa instalação de arte pública lembra uma ideia de mapeamento artificial. Três Morros (2016) é de fato uma transposição da descrição da cidade.

A artista Marina Camargo oferece seu mapa cognitivo de Porto Alegre, no sul do Brasil, reformulado em uma paisagem ficcional no parque público. Como é apontado no livro “A imagem da cidade” (The image of a City, 1960), de Kevin Lynch, a cidade como um objeto tem seu espaço urbano percebido de modo distinto quando visto de fora ou percebido através de seus habitantes. A artista de fato chama a atenção à paisagem invisível do lugar ao encorajar um processo de “fazer imagens”(image-making) e a sua conscientização das formas percebidas no próprio ambiente urbano.

Em seu ensaio, o geógrafo examina o sentido fragmentário e sempre em transformação da cidade, a medida em que é influenciado por preocupações e experiências pessoais, destacando a dimensão em que as imagens mentais ganham identidade e organização através da familiaridade. Nesse sentido, é interessante perceber o contraste dado ao trabalho como uma instalação permanente e a distorção esperada do seu próprio sentido. Lynch sugere ainda que identidade, estrutura e sentido são como três componentes a serem considerados quando se analisa um espaço; componentes que na realidade sempre aparecem interligados, indefinidos e convergindo entre si. A grama dos montes é distinta do resto do gramado; eles possuem uma identidade, eles ocupam um padrão espacial e quando se caminha ao redor deles, surge um sentido funcional ou emotivo: o que Lynch chama de “imaginabilidade”, ou melhor, a qualidade física de evocar uma forte sensibilidade imagética em qualquer observador.

O trabalho de Camargo também elucida como a criação de uma imagem é marcadamente um processo de duas vias entre o observador e aquilo que está sendo observado. Existem vários contrastes no trabalho. O primeiro deles é o material das placas de metal em contraste com a grama do parque. Segundo, como um trabalho de arte pública, a instalação funciona como um ponto de referencia na cidade. Em terceiro lugar, a paisagem sonora, como define Michael Bull, que parece estar deslocada, já que não há o som do trânsito nem dos habitantes da cidade. Por fim, se pensarmos a cartografia como uma estrutura onde as ruas são percebidas como guias que levam a algo ou a algum lugar, neste trabalho estamos frente a uma ferramenta mais livre para medir o espaço, sugerindo outras possibilidades de exploração quando se pensa na abrangência do espaço da cidade, como, por exemplo, a própria área circundante do perímetro do parque.

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Texto originalmente publicado no site Art & Tours – Art in Plain Sight, plataforma online dedicada a explorar temas como território, espaço urbano e intervenções públicas.