Ao tentar um pensamento norteador para o espaço expositivo do MARGS – em uma Bienal que tem como tema a territorialidade – focalizamos três rotas dentro do Rio Grande do Sul que, a nosso ver, propiciam visões diferenciadas e férteis a interpretações. A ideia reside, na verdade, em que as delimitações políticas das nações, no caso do Brasil e seus vizinhos, nem sempre correspondem a uma autonomia cultural encerrada dentro desses limites. Não me refiro ao tão discutido tema da Amazônia (território cultural que engloba Venezuela, Colômbia, Bolívia, Brasil, Peru, Equador, Suriname, Guiana e Guiana Francesa), com fronteiras políticas relativamente recentes, estabelecidas após o período colonial. O estado do Rio Grande do Sul hospeda, de maneira exemplar, duas dessas realidades político- culturais análogas: a região dos pampas e a das Missões.
Percorrendo os pampas – rio-grandense, uruguaio ou argentino –, percebe-se com clareza que se trata da mesma realidade, independente do nome de país que assume cada rincão. Seja do ponto de vista da paisagem – a planura a perder de vista com suas ondulações suaves, coxilhas, céu amplo –, seja pelo gado como cultura e base da economia ou pelo homem do campo com seus hábitos, forma de vestir, trabalhar e se distrair.
Como expressou bem uma das artistas que percorreu esses espaços, Marina Camargo: “a fronteira é antes uma região por si só, com suas próprias características, onde gaúchos são uruguaios, argentinos e brasileiros, onde se fala espanhol e se responde em português, onde se paga em reais e se recebe o troco em pesos uruguaios. Esperava uma separação entre dois lugares, clara, mais definida, assim como nos mapas que desenho: uma linha pontilhada, clara e precisa dividindo países […]. O pampa dissolve as fronteiras […]”.
Exemplo similar é oferecido pela região dos territórios que no período colonial foi o das Missões Jesuíticas – seja no Brasil, no Paraguai ou na Argentina – e onde as aldeias planificadas culturalmente pelos jesuítas tinham uma harmonia de objetivos: do ponto de vista de religião, do trabalho e das atividades artísticas e arquitetônicas.
O Tratado de Madri, de 1750, estabeleceu limites. Pouco depois, os jesuítas foram expulsos da região – em 1759 da colônia portuguesa e em 1767 dos domínios hispânicos. Porém, a própria presença dos guaranis e de seus descendentes pela região se estende até o estado de São Paulo. Pois que, desde fins do século XIX – após a “Guerra Grande”, a Guerra do Paraguai – os guaranis caminham em direção ao leste, por motivos religiosos. Mas aquela região dividida entre Brasil, Paraguai e Argentina se manteve como um território cultural, a despeito das fronteiras políticas, espaço peculiar com ruínas, povoações e tradições que se mantêm até nossos dias.
Uma região dramática em seu desenho geológico, com fendas rompidas há milhares de anos, ímpar em sua beleza, que emudece o visitante, é a dos canyons, no Rio Grande do Sul, ao longo do caminho em direção à Santa Catarina, entre a Serra Geral e o litoral norte do estado. Um lugar, igualmente, sem fronteira, no sentido de ser a natureza agreste a que domina e dirige o olhar do viajante, espectador deslumbrado pela força dos elevados precipícios, pelas quedas d ́água e pela densa vegetação.

No próprio espaço sul-rio-grandense se poderia ainda acrescentar outra região aparentemente invisível, também além fronteira, como o Aquífero Guarani, a maior reserva hídrica de água doce do planeta, situada no subsolo de partes da Argentina, do Uruguai, do Paraguai e do Brasil (estados sulinos, São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul), com capacidade de abastecer a população mundial por mais de cem anos.
Refletindo sobre esses territórios além fronteiras, indagamos: que são os limites político-geográficos senão expedientes criados pelos homens para plantar uma bandeira, desenhar um escudo, compor um hino e exigir documentação para cruzar uma fronteira por eles mesmos demarcada?
Ao percorrer quilômetros de estradas e cidades do território do múltiplo e belo Rio Grande do Sul, situado num país como o Brasil (habitado por indígenas de dezenas de etnias distintas), colonizado por portugueses, jesuítas, africanos, alemães, italianos, árabes e judeus, pode-se ponderar como é relativo os termos “fronteira” e “limite”, no sentido de circunscrição “nacional” que abrangeriam!
Na verdade, vaza muito mais sabor pelas bordas e pelos interstícios que o contido pela dura linha divisória de regiões “contínuas”, há décadas aparentadas. Como certa vez me disse alguém na Colômbia, ao mencionar a indubitável continuidade cultural entre esse país e a Venezuela: “porque, na verdade, os Morales de aqui são os Morales de lá; e não adianta crer que somos muito distintos […]” – provavelmente aludindo aos vínculos herdados do Vice-Reino de Nova Granada, dos tempos coloniais.
O desafio para os artistas convidados para Além Fronteiras foi a opção que deveriam fazer por uma dessas três regiões: os pampas, a região das antigas Missões e a região dos canyons. E, dessa escolha, deveriam extrair para suas presenças na 8a Bienal uma interpretação visual que registrasse sua poética frente a uma vivência dessas realidades físico-culturais.

Assim, convidamos nove artistas de gerações distintas, deliberadamente: do Rio Grande do Sul (Lucia Koch, Carlos Vergara, Marina Camargo, Carlos Pasquetti), de Belo Horizonte (Cao Guimarães), de São Paulo (Felipe Cohen), da Argentina (Irene Kopelman), da Colômbia (Jose Alejandro Restrepo) e um convidado de Israel (Gal Weinstein).

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Marina Camargo

Sem dúvida, um expoente da mais jovem geração de artistas gaúchos, a artista usufrui de bolsa do DAAD em Munique, onde trabalha atualmente. Signos, letras, palavras, o universo visível e, em particular, o meio urbano, constituem temática recorrente em seu trabalho. Enigmas visuais com a linha
do horizonte através de mutações que nos propõe a partir de fotografias, o fascínio pela cartografia, do céu como da terra, independente de conotações políticas, se constituem em alvo de suas projeções poéticas. Ela mesma lembra que “Se os mapas são desenhos que representam lugares, são como as letras, que também são desenhos e estão no lugar da linguagem falada (dando forma à linguagem escrita)”.
A viagem ao extremo meridional do país propiciada pela Bienal do Mercosul inspirou Marina Camargo a desenvolver a série de trabalhos para o evento deste ano, tendo em vista “a identidade cultural e geográfica de uma região”, pois, diz poeticamente, ali existe “uma diluição de fronteiras, que não são nem perceptíveis nem pertinentes”. Na verdade, a própria similitude dos céus nessas áreas é como a parecença das águas dos mares em países limítrofes.
A viagem realizada pelos pampas em fevereiro deste ano impulsionou o projeto de Tratado de limites, título dos trabalhos de Marina Camargo para esta Bienal, pois a artista captou, na ocasião, uma “delimitação geográfica própria” na região. Assim, as obras se intercomunicam como conjunto, formando um todo, abrangendo da cartografia poética ao som do vento e ao registro de uma instalação. Uma dessas peças é um mapa da região sul do Mercosul, feito de gelo, delimitando as fronteiras formadas, como diz a artista, por seus “mares, lagos ou rios”. À medida que o gelo derrete, os limites se desfazem. Em seu fascínio pela região dos pampas, que Marina identifica de maneira especial com a cidade de Tacuarembó, no Uruguai, ocorre essa diluição de fronteiras “que não são nem perceptíveis nem pertinentes”. Ao mesmo tempo, a região mapeada focalizada através de seus céus assinala com pertinência sua similitude com as águas dos mares, onde são indefinidas as fronteiras ou limites.

 

[ trechos do catálogo da 8º Bienal do Mercosul, realizada em Porto Alegre – Brasil, em 2011 ]