Mapas de espaço e tempo

Marina Camargo | 2019

Os Alpes numa praia tropical

Os papéis de parede com representações de paisagens europeias eram recorrentes na decoração de casas nos anos 70 e 80, e também em jogos de quebra-cabeça. Lembro um restaurante em frente à praia que eu costumava frequentar em Maceió, minha cidade natal, onde uma parede inteira era coberta com essas imagens.


Na época eu era uma criança que morava em uma praia tropical e achava deslumbrante aquela imagem de paisagem de montanhas. A paisagem era tipicamente europeia (o que eu não sabia na época), mas eu entendia que aquela era sim uma paisagem digna de ser estampada em um papel de parede. O que estava implícito ali é que há paisagens prototípicas. Também estava implícito que ali havia um valor superestimado em relação àquela paisagem, típico de um país colonizado. Hoje eu ainda acrescentaria não haver nenhum sentido usar um papel de parede do Caribe, por exemplo, se do outro lado da rua havia um mar e uma paisagem equivalentes. Naquele contexto a imagem da paisagem no outono europeu era o mais exótico que podíamos admirar.

O que está em jogo nessa lembrança, e que reconheci recentemente, é o fato de que existe uma representação de paisagem que seria como uma referência para representar todas as paisagens. A paisagem das montanhas dos Alpes é uma dessas representações. Tão conhecida, tão amplamente reproduzida mundo afora, essa paisagem guarda a própria ideia de paisagem em si.

Ali, entre a paisagem do papel de parede e a praia tropical do outro lado da rua, ficaram evidentes dois modos distintos de percepção dos lugares: através da representação do espaço ou através da presença nos lugares (percepção da matéria).

O que se anuncia entre esses dois modos é um sentido de deslocamento que será marcante na minha vida e no meu trabalho. A imagem até então fictícia dessa paisagem europeia aparece como um prenúncio de onde eu viria a viver. E aquela praia passa a ser a praia para onde sempre retorno, para onde sempre retornarei, a linha do horizonte que me guia.


Uma montanha na fronteira

Anos mais tarde, quando fui estudar em Munique, reencontrei essa paisagem que já conhecida de inúmeras reproduções (como cartões postais, papéis de parede etc.). Se minhas referências estavam originalmente relacionadas com a linha do horizonte reta, desenhada pelo encontro do mar e do céu, com os Alpes me aproximei de um outro universo.


Quando estamos diante de uma montanha, estamos diante de diversas dimensões de uma paisagem. Os Alpes são uma paisagem icônica quando se trata de ideias ou identidades nacionalistas (esta foi uma paisagem emblemática para o Romantismo Alemão, sendo mais tarde retomada pelos nazistas como uma imagem da nação). Há camadas de história, referências culturais, registros tão divulgados que nos fazem ter a impressão de já conhecer o lugar onde nunca estivemos.


A formação geológica das montanhas ainda nos revela outras dimensões de espaço e tempo. As montanhas são formadas de vários modos. No caso dos Alpes, são montanhas formadas a partir de uma dobra do solo, resultado da colisão entre placas tectônicas. Essa colisão faz com que partes profundas de um oceano terminem formando o pico de uma montanha, ou faz com que o solo de um continente acabe formando uma montanha em outro continente.


Tomando como exemplo um caso específico, Matterhorn é uma montanha icônica da paisagem europeia, situada no centro do continente europeu. Sobre essa montanha passa a fronteira entre Suíça e Itália. Se as fronteiras políticas normalmente já parecem abstrações, como uma imposição geométrica sobre os lugares, no caso de Matterhorn a fronteira passa sobre um dos picos mais altos e conhecidos dos Alpes.

Essa montanha, que representa uma paisagem tipicamente europeia, revela ainda o encontro entre continentes distantes. Matterhorn é uma montanha formada por rochas e sedimentos do continente africano. Se a fronteira política sobre uma montanha soa como algo abstrato, o fato de a montanha ser formada por solo africano é algo concreto e visível através das formações rochosas encontradas no pico da montanha.

Então uma série de especulações se desdobram a partir dessa observação: a quem, afinal, pertenceria um solo? Observando a dimensão geológica, o que seria possível pensar sobre o sentido de pertencimento a um lugar? Como entender a pertinência das fronteiras políticas?

Quando estamos diante de uma montanha, estamos presenciando uma lenta movimentação de placas tectônicas. O tempo aqui é da ordem de milhares de anos, de modo que não podemos de fato perceber esse movimento, a não ser se observarmos os vestígios deixados por essa movimentação.

Para além do que é imediatamente visível em uma paisagem, há a fluidez que move a organização da Terra. O que é fluido vem de dentro da Terra, das entranhas do planeta, e alcança sua superfície através de empurrões vagarosos e brutais que formam montanhas através de terremotos e vulcões. Essa fluidez faz com que as placas tectônicas se movam constantemente – logo, alterando continuamente as estruturas da Terra e, por consequência, também a paisagem.

A lógica de obstrução, tão claramente desenhada pelas fronteiras políticas, é uma construção cultural que se impõe no mundo como uma grade, como se o mundo físico pudesse ser encaixado nessa estrutura ortogonal e de controle. Ao mesmo tempo, é justamente essa estrutura ortogonal imposta sobre o mundo físico que vai possibilitar o desenvolvimento do pensamento cartográfico como o conhecemos hoje.


Como nascem os mapas

Para desenhar um mapa o mundo precisa ser sistematizado. É um princípio da representação. A partir daí, um processo de tradução é iniciado. O globo terrestre é planificado, convertido em duas dimensões. Convenciona-se que o norte geográfico será representado no alto do mapa (como fez Mercator, a partir dos mapas de navegação marítima). Há ainda outras questões de ordem prática: regiões inteiras podem ser aumentadas ou reduzidas nesse processo de transformação, seguindo os interesses específicos de quem desenha o mapa.

Ao pensarmos os mapas como representações de mundo, podemos acolher a ideia de que há um tanto de criação nesse processo, sabendo que há inevitavelmente uma distância entre o que os mapas são e o que eles representam; entre o desenho de um lugar específico e o próprio lugar representado.

Apesar disso, os mapas são entendidos como dados objetivos do mundo e tendem a ser lidos como verdades absolutas. Ainda que os mapas sejam feitos a partir da reunião de dados objetivos da realidade, há também visões de mundo ali implicadas.

Assim os mapas se tornam instrumentos de discursos, sendo regidos ou influenciados por questões políticas, econômicas, históricas, por interesses nacionais, também pelos relatos de dominação e do momento histórico que representam.

Nesse sentido podemos entender os mapas como construções narrativas não-lineares, como narrativas contadas através de topografias espaciais.


Continentes flutuantes

Quando se fala da movimentação das placas tectônicas, inevitavelmente se remonta a um momento original em que a Terra era composta por um único continente. Esse território único, uno, unido, utópico por essência, teria antecedido o momento de fragmentações e movimentações que formou a Terra como a conhecemos hoje.

A Pangeia remete à ideia de uma unidade original, de um todo que veio a ser separado, fragmentado. Nessa narrativa há uma noção de completude interrompida pela fragmentação inevitável do desenvolvimento geológico da Terra.
Os continentes se movem continuamente. Uma vez que seguem o movimento contínuo das placas tectônicas, poderíamos dizer que habitamos “continentes flutuantes”.

E, se há um movimento contínuo das placas tectônicas e dos continentes como os conhecemos hoje, seria possível suspeitar que essa configuração da Pangeia (como uma concepção de uma forma unitária estável do mundo) não tenha sido a primeira configuração dos continentes. Seria possível supor que teria havido outras configurações dos continentes antes de uma Pangeia. Seria ainda possível pensar que os continentes são formas instáveis por excelência.

A ideia de que não ocupamos um lugar completo, totalizante, nos faz testemunhas de territórios moventes, metamórficos, absolutamente fragmentados – assim como nossas visões de mundo o são. Afinal, se na base há estruturas fluidas e moventes, por que então entender o mundo através de formas e estruturas rígidas? Essa fluidez interna da Terra não deveria definir um outro modo de estar no mundo? Estaríamos ainda confinados a pensar o mundo através de uma lógica cartesiana? Seríamos aficionados pela grade e por estruturas sólidas? E se as nossas estruturas de representação e compreensão do mundo fossem fluidas?


A distância entre as coisas

A lembrança daquela paisagem do papel de parede no restaurante em frente à praia me revelou algo que é central em minhas pesquisas. A paisagem no papel de parede era uma representação de um lugar, porém mais do que isso, era uma espécie de paisagem contêiner, onde a síntese da ideia da paisagem constitui e ao mesmo tempo contém a paisagem. Justamente essa distância entre a paisagem do papel de parede e a paisagem da praia tropical do lado de fora do restaurante é o que me interessa. É nesse espaço entre os dois lugares que procuro situar meu pensamento (entre real e representado, entre lembrança e matéria).

Essa mesma distância revela muito sobre a natureza da cartografia. Quando vemos um mapa, estamos diante de uma redução gráfica dos lugares. Há elementos da paisagem ali presentes (como estradas, montanhas, fronteiras), mas também elementos não visíveis podem estar presentes (dados sócio-econômicos, profundidade dos mares, fluxos migratórios etc.). Independente da sua natureza ou função, os mapas guardam uma relação direta com o mundo concreto e, ao mesmo tempo, uma distância em relação a ele. A distância ou a relação direta com as coisas mundo são medidas igualmente necessárias para a existência de um mapa.

As montanhas se apresentam para mim como enigmas. Elas revelam, através de sua presença física, camadas diversas da formação da paisagem enquanto dobras do solo. As montanhas plasmam uma marcação de tempo que é de uma ordem não apreensível (ou não diretamente perceptível) para a nossa existência humana. As camadas temporais se mesclam com as sobreposições físicas, assim gerando uma relação entre espaço e tempo que ainda nos escapa à compreensão.

De modo essencialmente distinto, também podemos perceber o céu de estrelas como uma marcação de tempo. Através da posição das estrelas no espaço é possível remontar a momentos específicos do tempo. Ao olhar para um céu estrelado estamos olhando para uma espécie de mapa do tempo.

O tempo que vemos através da configuração das estrelas no céu é obviamente uma abstração: o que vemos é uma imagem parcial de um universo (o universo visível a partir de nosso ponto de vista na Terra) que, na realidade, é formado por vestígios de luz de estrelas em movimento. Ou seja, o tempo que podemos “ler” através do espaço não é apenas parcial, mas também essencialmente distorcido.

Ainda assim, um céu de estrelas nos mostra um momento específico do tempo e uma posição específica no espaço, sendo possível situar o ponto geográfico e o momento no tempo desde onde vemos (onde e quando).
Observando um céu de estrelas é possível vê-lo praticamente como um mapa planificado, pois o que vemos desde o nosso lugar são pontos luminosos em meio à imensidão escura do céu noturno.

O que observamos, afinal, são apenas vestígios. A luz das estrelas são como vestígios que indicam momentos do tempo. As dobras geológicas nos mostram fragmentos de um espaço em movimento. Os continentes moventes revelam outras estruturas possíveis para a cartografia. As estruturas fluidas, substituindo as estruturas ortogonais, se revelam como um modo de expansão da cartografia e da representação do espaço e do tempo.


Texto originalmente publicado no livro “Marina Camargo: Der Ort danach | O lugar depois“, editado por Peter W. Schulze e Claudia Cuadra, Universität zu Köln, 2019.