Os pampas e o mar (notas de viagem)
Marina Camargo (2011-2019)

O oceano Atlântico desenha o litoral brasileiro, o rio Uruguai define os contornos do Rio Grande do Sul, assim como o Rio da Prata, as lagunas, os mares desenham a geografia da região sul. Quando as fronteiras políticas coincidem com os limites definidos pelo encontro entre terra e água, parecem fazer mais sentido.

Ao cruzar a fronteira do Brasil com o Uruguai, pouca variação se percebe entre um país e outro. É uma travessia quase imperceptível. Antes de iniciar a viagem pelos pampas, esperava encontrar nas fronteiras uma separação evidente entre dois lugares, algo equivalente ao que vemos nos mapas.

A linha que divide os dois países define antes um região onde semelhanças são compartilhadas, onde as cidades de nomes distintos se misturam. Nos pampas, as fronteiras parecem dissolvidas. Tudo nessa paisagem remete à continuidade e à extensão. Esses campos definem uma região para além das divisões políticas dos mapas. Nessa outra organização, a cidade de Tacuarembó torna-se uma espécie capital regional. 

Os pampas estendem-se em coxilhas, por vezes em horizontes retos nas planícies sem fim. Parece não haver anteparo para os ventos nessa paisagem – ventos que estão sempre presentes nos campos e no imaginário do gaúcho. Nos campos do sul as distâncias são relativas, enganosas até. Entre uma cidade e outra, há uma grande distensão não apenas do espaço mas também do tempo.


As coxilhas estendem-se até a proximidade do mar, uma aproximação que traça um sentido de semelhança entre ambos – seja em sua continuidade, seja em sua ondulação ou no sem fim de sua extensão.

A minha viagem pelos pampas terminou com o encontro com o mar, na cidade de São José do Norte, cercada por águas de mar e laguna, na extremidade de um litoral de linhas retas (talvez a mais cartesiana das paisagens brasileiras). Onde já não havia pampa, encontrei um outro sentido para o que havia deixado para trás. O tempo da travessia no mar é como o tempo da travessia dos pampas. Tudo estava lá, embora a paisagem fosse totalmente distinta: o tempo se arrastando, o barco ondulando, as coxilhas subindo e descendo, o vento sem fim como uma constante invisível na paisagem.


Viagens realizadas em 2011, quando foi escrita a primeira versão desse texto. A proposta de realizar a viagem pela região dos pampas partiu de Aracy Amaral em sua curadoria para a 8ª Bienal do Mercosul.

Os textos foram depois publicados no catálogo da exposição “Miguel Bakun: subtropical”, realizada no Instituto Tomie Ohtake, em 2019, com curadoria de Luise Malmaceda e Paulo Miyada.

Lugar: Tacuarembó (notas sobre a terra)

Tacuarembó é uma cidade situada no interior do Uruguai, geograficamente central nos pampas. Enquanto bioma que se estende pelo sul do Brasil, Uruguai, norte da Argentina, os pampas definem uma região que se sobrepõe às fronteiras políticas entre esses países –como se a geografia física da região fosse mais presente do que a geografia política.

O projeto tem início com a instalação de um letreiro que escreve o nome da cidade na entrada de Tacuarembó. As letras de concreto usadas no projeto são semelhantes àquelas usadas nas entradas de cidades no sul do Brasil, mas em “Lugar: Tacuarembó” elas estão parcialmente enterradas.

Sob os campos nos arredores de Tacuarembó, encontram-se diversos sítios arqueológicos indígenas: ainda que mapeados, muitos desses materiais arqueológicos seguem enterrados por motivos de preservação. A história da região é protegida ou ocultada pela própria terra.

A instalação do letreiro na cidade uruguaia indica a localização de uma das entradas da cidade, como um ponto específico no mapa, enquanto ao mesmo tempo traz um sentido de visibilidade a esse centro deslocado ao sul.
Com o passar do tempo, o letreiro pode acabar sendo totalmente encoberto pela terra e a vegetação nativa. Seria como se a linguagem refizesse então o destino das ruínas de outras culturas, voltando a ser vestígio e apagamento.